Publicado em

29 de Julho de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Viana do Castelo

Alto Minho: o turismo sustentável e a sustentabilidade pelo turismo

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Autor: Sara Simões (1)


A sustentabilidade é um tema bastante atual e a sua aplicação ao turismo não é exceção. Em 2005, a Organização Mundial do Turismo apresentava o conceito de “Turismo Sustentável”, remetendo para o uso adequado dos recursos naturais, o respeito pela autenticidade sociocultural das comunidades locais, a viabilidade da atividade e dos vários agentes no longo prazo e a satisfação dos turistas. Estavam, portanto, presentes as dimensões ambiental, social e económica, que se associam à noção de sustentabilidade. Mais recentemente, em 2015, é publicada a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, com 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, visando a criação de um novo modelo global para acabar com a pobreza, a promoção da prosperidade e bem-estar de todos, a proteção do ambiente e o combate às alterações climáticas. Estes são os grandes desafios da atualidade e o turismo poderá assumir um papel relevante, por contribuir para a dinamização de economias locais, em especial nos territórios de baixa densidade e com elevada atratividade, como é o caso do Alto Minho. Assume maior importância a reflexão sobre o turismo como contributo para a sustentabilidade desta região, em vez de ser sustentável em si.

O Alto Minho, região constituída pelos dez municípios que integram o distrito de Viana do Castelo, é um território predominantemente rural, onde as zonas de montanha ocupam cerca de 40% da superfície territorial da região. Estas áreas de montanha incluem a Serra D’Arga, as zonas mais altas de Ponte de Lima, Paredes de Coura e Melgaço e as Serras da Peneda, do Soajo e Amarela, estas já em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês. Têm características muito próprias em termos naturais e paisagísticos, socioculturais e económicos. Marcadas por um forte declínio demográfico que se foi estendendo até hoje, impõem dificuldades a quem lá vive e trabalha, ocorrendo o abandono de áreas agrícolas e de elementos do património cultural e natural ligados às comunidades locais, o que tem vindo a preocupar cada vez mais a sociedade e os responsáveis políticos. O turismo surge, quase inevitavelmente, como uma das atividades que pode contribuir para contrariar estas tendências, e no Alto Minho essa estratégia está bem presente. É a primeira região NUT III a ter o galardão “Carta Europeia de Turismo Sustentável”, atribuído pela EUROPARC (Federação Europeia de Parques Nacionais e Naturais), reforçando-se o compromisso de apostar num modelo de turismo de qualidade, recorrendo a metodologias participativas envolvendo instituições, empresas e populações locais.

São numerosos e reconhecidos os atributos desta região, fazendo dela um destino de excelência, já distinguido internacionalmente: a sua qualidade e diversidade ambiental e paisagística (do mar à montanha, incluindo áreas protegidas e classificadas), vasto património cultural (cidades e aldeias rurais repletas de história), reconhecido património gastronómico e elevada biodiversidade e agrobiodiversidade.

É inquestionável o elevado potencial turístico do Alto Minho, bem como a sua forte vocação rural e natural, favorecendo o turismo rural, gastronómico, de natureza, náutico e o enoturismo. Mas não é evidente perceber o real contributo do turismo para o desenvolvimento sustentável da região. Nos últimos anos, assiste-se a uma procura crescente por estes espaços de natureza e, em particular, das suas zonas de montanha para realização de atividades de turismo e lazer. Se, por um lado, a maior afluência de turistas e visitantes poderá criar oportunidades de negócio ligadas ao alojamento, restauração e animação turística; por outro, existem aspetos que poderão diminuir a sua aura de sustentabilidade: meios de acesso e transporte (muitas vezes viagens de longa distância), instalações para alojamento e outras infraestruturas – de fornecimento de água e energia e outras de apoio à atividade turística. Juntam-se os impactos da maior pressão turística em ambientes naturais de elevado interesse paisagístico (que são, muitas vezes frágeis), que poderão levar a perdas permanentes de biodiversidade e ainda o agravamento do abandono de atividades agrícolas e florestais, em consequência da conversão das profissões ligadas à agricultura por novas atividades ligadas ao turismo. Tudo isto levaria a uma irremediável perda da identidade do território, da autenticidade das paisagens moldadas pelo Homem e do comprometimento da manutenção de ecossistemas ligados à atividade agro-silvo-pastoril. Esta “turistificação”, entendida como uma expansão rápida e excessiva da oferta turística e da pressão do turismo sobre o território, deve ser prevenida.

O envolvimento dos atores locais e a valorização dos seus saberes e tradições nas estratégias a seguir no turismo deverão ser as armas para a sustentabilidade do Alto Minho. Alguns exemplos de ações que deverão ser preconizadas: 1) Criação de atividades turísticas ancoradas nos saberes das pessoas da comunidade local, consolidando a identidade territorial e criando oportunidades de rendimento complementar; 2) Preferência por produtos locais, favorecendo a manutenção da atividade agrícola e pecuária e da agrobiodiversidade (esta região tem um vasto património genético: raças autóctones e variedades regionais), a implementação de cadeias curtas de comercialização, com menores custos energéticos e menores impactos ambientais. Este ponto está em estreita consonância com o “Pacto Ecológico Europeu”, com as premissas preconizadas para a agricultura contidas na “Estratégia Do Prado ao Prato”, em defesa de um sistema alimentar justo, saudável e amigo do ambiente. 3) Criação de mecanismos que permitam obter contribuições voluntárias por parte de visitantes e de empresas ligados ao turismo, que sejam aplicadas na conservação da paisagem, remunerando uma parte deste trabalho.

Esta é a visão de sustentabilidade que importa estar presente nas instituições e empresas do setor no Alto Minho. Para além das preocupações ambientais mais diretas, seja ao nível da utilização eficiente de energia e da água, bem como da gestão ambiental dos resíduos, as suas estratégias devem incluir a preocupação com a manutenção das comunidades locais e da sua atividade agrícola proporcionadora de valores paisagísticos com forte potencial de atração turística (por exemplo, os socalcos de Sistelo, ou o “Pequeno Tibete Português” que recebeu a classificação de Paisagem Cultural, na categoria de Monumento Nacional). Assim se alcançará o verdadeiro sentido de sustentabilidade do turismo, pela sua capacidade de criação de benefícios compensadores e duradouros para todos os atores: agentes económicos, comunidades locais e visitantes, pelo seu contributo para a revitalização económica e social das aldeias mais afetadas pelo abandono, mantendo a autenticidade do território.

A inserção do Alto Minho na rede europeia de destinos de excelência é o mote que deverá motivar o tecido empresarial a investir na sua qualificação para descobrir e abrir os novos caminhos do desenvolvimento sustentável da região.  

 

 

Referências:

http://www.cets.altominho.pt/

http://www.aconteceinloco.altominho.pt/fotos/editor2/aconteceinloco/turismosustentavel_montanhadoaltominhoinloco3.pdf

 

 

(1)    Sara Simões é licenciada em Engenharia Agronómica, pós-graduada em Agricultura Biológica, mestre em Economia Agrária e Sociologia Rural e doutoranda em Desenvolvimento, Sociedades e Territórios. É docente convidada da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, e membro colaborador da Unidade de Investigação em Materiais, Energia e Ambiente para a Sustentabilidade - proMetheus. Participa em projetos de investigação orientados para processos de dinamização de territórios rurais, tendo investigação publicada em temas relacionados com processos participativos no desenvolvimento rural e gestão da propriedade comunitária. É formadora externa da EHTVC no programa Upgrade Sustentabilidade e formadora em projetos de qualificação de pessoas com deficiência e/ou incapacidade.

 

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