Publicado em

23 de julho de 2020

Escola do Turismo de Portugal //

Lisboa

Cultura, Património e Turismo - O estado da arte
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(…) cuidar do Património Cultural, assumir uma autêntica cidadania cultural, significa considerar o acervo recebido das gerações que nos antecederam como responsabilidade de todos […] como disse Sophia de Mello Breyner: ‘A cultura é cara. A incultura acaba por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo’ “

(Guilherme d’Oliveira Martins, in Público, 29 abril 2019)


Como ponto de partida deste artigo pensamos ser oportuno tentar perceber o que se entende por cultura, tarefa que não se afigura simples, dado não existir um consenso na Academia, nem nos autores.


De acordo com a genealogia clássica do conceito de cultura, elaborada por Raymond Williams (1988), o termo cultura, palavra latina originalmente conotada com o cultivo da terra ou o cuidado dos animais (visava, portanto, a obtenção de um resultado valioso), passou a partir do séc. XVI, a aplicar-se também ao desenvolvimento das faculdades humanas superiores, ao cultivo da excelência espiritual.


Segundo os dicionários, cultura é definida, no âmbito da sociologia, como o «sistema de valores, conhecimentos, técnicas e artefactos, de padrões de comportamento e atitudes que caracteriza uma determinada sociedade» (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 1972) ou, também, como o «conjunto de costumes, práticas, comportamentos que são adquiridos e transmitidos socialmente de geração em geração: ‘cultura asteca’, ‘cultura inca’, ‘cultura grecolatina’, ‘cultura latinoamericana', ‘cultura ocidental’» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, 2001). Pelo facto de estar intimamente associada às particularidades de um determinado povo ou de uma civilização, o termo cultura refere-se, ainda, ao «património literário, artístico e científico de um grupo social, de um povo», bem patente na frase: “recuperar os monumentos antigos é preservar a nossa cultura.”


Por sua vez, se não nos quisermos limitar a estas fontes e optarmos por direcionarmos a nossa pesquisa a bibliografia específica, da autoria de investigadores de áreas diversas, apercebemo-nos de que as suas definições de cultura não divergem das dos dicionários.


De acordo com Costa (2007, p. 39 “(...) com a afirmação do iluminismo o termo ‘cultura’ sofre um alargamento do seu significado, integrando o património universal de conhecimentos e valores formativos acumulados ao longo da história da humanidade, enquanto depósito de memória coletiva, aberto a todos, fonte constante de enriquecimento da experiência.” 


Os pensadores da escola alemã de Frankfurt, utilizam o termo cultura com um significado diferente dos antropólogos. Cultura não significa práticas, hábitos ou modos de vida. Esta escola associa cultura à Kultur identificando-a com a arte, filosofia, literatura e música. As artes expressariam valores que constituem o pano de fundo de uma sociedade. Marcuse (1970) dirá que a cultura é o conjunto de fins morais, estéticos e intelectuais que uma sociedade considera como objetivo de organização, da divisão e da direção do trabalho.


De acordo com Marques (1995, p. 13) citando Herriot “(...) a cultura é o que resta depois de tudo se ter esquecido.” Este autor na mesma obra (1995, p. 13) refere ainda o conceito de cultura adotado pelo Conselho da Europa para o qual “(...) a cultura é tudo o que permite ao individuo situar-se em relação ao mundo e também em relação ao seu património natal; é tudo o que contribui para que o homem compreenda melhor a sua situação, tendo em vista a eventual mudança desta.”


Já o ensaísta Eduardo Lourenço, numa entrevista ao Semanário Expresso (janeiro, 12, 2016) afirma que “(...) a cultura é o diálogo da humanidade consigo própria, (...) porque a cultura não tem o monopólio do que é preciso, ou não, saber. Ela é o lugar onde se discute o sentido de tudo quanto somos capazes de fazer. E, como tal, a cultura não é a resposta, é a questão. A questão que a humanidade tem consigo própria”.


Neste sentido, o ‘bem’ turismo deveria promover os laços fracos, ou seja, uma maior aproximação e fortalecimento de laços entre culturas diferentes, no seguimento das orientações da UNESCO (2002, p. 2), na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, no art.º 2.º “(…) nas nossas sociedades cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais, variadas e dinâmicas, assim como a sua vontade de conviver.”


Esta ideia é reforçada por Eliot (2004, pp. 497-5149) quando define cultura como um conjunto de maneiras coletivas de pensar e de sentir que constituem a herança social de uma comunidade.


Nesta linha, Tolentino Mendonça (in JN, 13 de junho), lembrou que a cidadania europeia é também uma cidadania cultural, e que esta se liga "ao tesouro da memória, à pluralidade das tradições e raízes que, através das gerações, alicerçaram uma identidade e um quadro de valores onde nos reconhecemos"[…] e desafia-nos a não fechar o património cultural no passado. O património cultural é um motor indiscutível do presente e só com ele podemos pensar que há futuro”.


Em jeito de conclusão do tema, julgamos interessante (assumindo a responsabilidade de substituir do texto original ‘direito’ por ‘turismo’) citar Silva (2007, p. 7) quando escreve “(...) entre o ‘Turismo’ e a Cultura existe uma espécie de relação amorosa, em que cada um dos ‘pares’ completa o outro, com vantagens e benefícios recíprocos, na medida em que a Cultura obriga o Turismo a evoluir e o Turismo recompensa-a, tornando-a mais universal e democrática.”


Artigo elaborado por Bonifácio Rodrigues

Ph.D. Turismo, Lazer e Cultura

Formador EHTP Lisboa e Estoril



Referências

_JN (2020). Jornal de Notícias, 13 junho. Porto.

_Público (2019). Jornal Público, 29 abril. Lisboa.

_Rodrigues, Bonifácio (2018). Turismo Cultural e Desenvolvimento. A Rota das Catedrais e o Caso de Santarém. Tese Doutoramento. Repositório da Universidade de Coimbra. Coimbra.



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