Publicado em

2 de Agosto de 2022

Escola do Turismo de Portugal //

Portimão

O mindfulness que faltou a Fernando Pessoa

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“Ela canta, pobre ceifeira…”


É assim o início de uma composição poética de Fernando Pessoa ortónimo[i], cuja temática abordada é a “dor de pensar”, provocada pela intelectualização do sentido. Pensar causa sofrimento? Dói, quando o ser é consciente.

A figura central deste poema é uma ceifeira, cuja vida dura e ingrata não impede que a mesma alcance a felicidade e mantenha o tom alegre na ondulação da sua voz ao cantar. É pobre, viúva e trabalha diariamente em condições adversas na lida do campo, de sol a sol, numa época em que as mulheres, institucionalmente, dependiam integralmente dos homens.

Então, que motivo tem, esta ceifeira, para se alegrar? A sua “alegre inconsciência”, o facto de não ocupar o seu intelecto com a análise dos seus sentimentos e das condições miseráveis da sua própria vida. Vive espontaneamente, deixa-se levar pela espuma dos dias, aproveitando o dom da vida.

Em oposição, encontramos um sujeito lírico pleno de conhecimento, totalmente consciente de si, mas que o remete para a infelicidade, porque se desgasta a intelectualizar os seus sentimentos, não sendo capaz de libertar a mente de pensamentos, torná-la mais leve, para então atingir a felicidade alcançada pela “ceifeira” que “….canta como se tivesse/ Mais razões p’ra cantar que a vida”.

Ao longo do poema, composto por seis estrofes, o sujeito poético confessa desejar o impossível, isto é, ser a “ceifeira” sem deixar de ser ele próprio (“Ah, poder ser tu, sendo eu”). Este desejo decorre da tristeza e desolação por não conseguir abolir o viço excessivo do pensamento. Afirma que gostaria de ser a “ceifeira”, com a sua “alegre inconsciência”. Diz-nos que gostaria de sentir sem pensar, mas paradoxalmente, gostaria também de ser ele mesmo, ou seja, ter a consciência de ser inconsciente. No fundo, a sua quimera é unir o plano do sentir e o plano do pensar.

A “ceifeira” surge, assim, como um símbolo de uma alegre inconsciência, enquanto o poeta reclama para si uma espécie de trituração mental que o conduz a parte alguma (“o que em mim sente, ‘stá pensando!”). Daí a constante dicotómica que percorre o poema, em que são colocados em planos antagónicos a “ceifeira” – que representa o sentir, a inconsciência e a alegria e, por isso, vive descontraída – e o sujeito poético – associado ao pensar, à consciência e à dor que, por sentir pensando, não se consegue libertar do sofrimento.

E se o mindfulness fosse uma técnica contemporânea de Fernando Pessoa? Existiria espaço para a “ceifeira”? O pensamento continuaria a ser fonte de dor e sofrimento?

E este sofrimento, também tão presente em alguns de nós, é, de facto, causado pela nossa mente, ao realizar a sua missão prioritária: precaver-nos para todos os cenários possíveis e procurar soluções para os problemas quotidianos. De forma constante, esta bombardeia-nos com pensamentos, sobrecarrega-nos com “ses” e “mas”, leva-nos a um dia-a-dia vivido em “piloto automático” e faz com que a nossa capacidade de estar e apreciar o momento presente se perca. Isto pode ter um sério impacto, de forma individual, no bem-estar, saúde mental e felicidade, e também com repercussões ao nível social, da saúde, educação, trabalho e, consequentemente, da economia.

Uma mente demasiado focada nas agruras da vida, nos problemas do passado e nas ansiedades relativas ao futuro acaba por gerar sentimentos de stress, ansiedade, medo, tristeza, depressão ou outras dificuldades que impedem o desfrutar da vida em pleno.

Voltando de novo para “a ceifeira”, percebemos que esta vive a sua realidade, mantendo a sua atenção no “aqui” e no “agora”.

E, de facto, este parece ser, à luz das mais recentes investigações, um dos segredos de quem se descreve como “feliz”: o foco no momento presente, o não-julgamento e a aceitação. A esta filosofia de vida chamamos Mindfulness, o “treino” da nossa mente para se manter presente, o não ficar preso a pensamentos sobre o que já aconteceu ou o que pode vir a acontecer, que pretende levar os praticantes a alcançar um estado de atenção plena e de aceitação, tanto em relação aos processos internos (o respirar, as sensações corporais, os pensamentos e as emoções) como aos objetos externos (através da utilização dos sentidos), levando também a uma maior capacidade de cuidar tanto de si próprio como dos outros.

As técnicas de Mindfulness radicam em tradições orientais milenares, mas foi o médico Jon Kabat-Zinn que as passou a utilizar como um método terapêutico que melhora a saúde mental, no fim do século XX. Desde então, muitas terapias com base nestes pressupostos começaram a ser desenvolvidas.

Ellen Langer, professora de psicologia em Harvard, frequentemente considerada a “mãe da Mindfulness, define-a como “a simples arte de perceber coisas novas”. Para a pesquisadora, a rotina e a visão viciada são inimigas do estado de consciência plena: “Quando achamos que conhecemos bem as coisas, deixamos de prestar atenção” e, consequentemente, perdemos oportunidades”. Ao começamos a olhar para as coisas familiares como se fossem novas, tudo fica mais interessante!

Cada vez mais, a comunidade científica tem vindo a comprovar os benefícios, mentais e físicos, da atenção plena. Uma parte significativa das patologias psicológicas devem-se ao facto dos sujeitos se tornarem “reféns” das suas próprias histórias e conceptualizações, daquilo que foi o seu passado e do que poderá ser o seu futuro. A abordagem mindfulness possibilita a libertação das “amarras” dos padrões de comportamento automáticos, redirecionando o foco da atenção para os aspetos palpáveis da experiência humana.

Apesar desta ser uma prática poderosa, não resolve todos os problemas, mas proporciona ferramentas para responder ao que nos rodeia e nos acontece de forma diferente, oferecendo espaço entre os acontecimentos e a forma como lhe reagimos.

É crescente o impacto dos problemas de saúde mental na sociedade moderna. Mas o que será que os origina? Os nossos corpos e mentes são o resultado de uma série de adaptações provocadas por uma combinação de mutações genéticas aleatórias e sucesso reprodutivo. A mente humana foi sendo treinada, ao longo de milhares de anos, para se concentrar em problemas imediatos: encontrar comida, abrigo e evitar ser atacado por animais selvagens. Após milhares de anos de relativa estabilidade, as últimas centenas de gerações testemunharam incríveis revoluções culturais. A agricultura, a indústria e a tecnologia tiveram todas um impacto dramático na forma como dormimos, comemos, comunicamos e sobrevivemos. Mas a nossa mente não foi assim tão rápida a treinar-se para lidar com estes desafios menos imediatos (alterações climáticas, obesidade, guerra, pandemias, … (Giphart, 2019)) e a outros de índole mais social. O cérebro e os seus processos ainda não se adaptaram ao mundo moderno, aquilo a que os psicólogos evolutivos chamam de "desajustamento psicológico". Esta falta de alinhamento afeta a capacidade de lidar com determinadas situações, surgindo problemas de saúde mental (ansiedade, depressão, stress pós-traumático,…). Mas há esperança! Podemos aprender formas de superar o nosso cérebro ancestral e treiná-lo para lidar com os desafios da sociedade atual.


Então, de forma concreta, o que poderia Fernando Pessoa fazer para conseguir a paz de espírito da ceifeira? Como se poderia tornar mais mindfull?

A prática pode ser tão simples como a consciencialização da respiração e do corpo, a observação e foco nos nossos pensamentos e emoções à medida que vão e vêm antes de gentilmente voltar a focalizar as sensações físicas, cultivando uma perspetiva curiosa, compassiva e acolhedora (não só do outro, mas também de si próprio).

O Mindfulness compreende diversos exercícios de meditação. Com a experiência de atenção plena mais enraizada, através da realização diária, torna-se cada vez mais fácil aplicar a técnica no dia-a-dia para além dos momentos de meditação.

Uma das abordagens mais conhecidas, difundidas e validadas é o programa MBSR (Mindful-based Stress Reduction Program), que foi desenvolvido por Jon Kabat-Zinn e seus colaboradores no Center for Mindfulness da Escola Médica da Universidade de Massachusetts. Trata-se de um programa psicoeducativo de intervenção em grupo, dirigida a uma ampla gama de transtornos relacionados com o stress. Durante oito sessões semanais os participantes têm acesso a períodos práticos de experimentação da atenção plena e períodos de reflexão e de investigação sobre a natureza da atenção plena e integração na vida quotidiana. Os participantes são convidados a praticar diariamente exercícios de mindfulness/atenção plena, seguindo práticas guiadas e fazendo mapeamentos de sensações e emoções.

Também Daniel Goleman, psicólogo e autor conceituado, defende que o cérebro, como todos os outros músculos do corpo humano, deve ser exercitado com frequência se quisermos que ele se desenvolva e funcione cada vez melhor. Sugerimos então alguns exercícios, para quem deseja iniciar-se no universo Mindfulness.


Práticas simples de mindfulness para pessoas ocupadas e sujeitos líricos assoberbados:

Gratidão pela manhã

Ao acordar, crie uma lista de pessoas e circunstâncias que o ajudam a manter-se saudável e feliz. Pode, por exemplo, agradecer pelos seus pais, amigos, saúde, finanças. Mesmo que esteja a passar por um período difícil, lembre-se de que há coisas pelas quais ser grato – mesmo que seja água corrente, roupa limpa e uma cama. Pode optar por fazer uma lista ou passar 10 alguns minutos a refletir sobre isso.


Caminhada meditativa

Tire um momento do seu dia para realizar uma caminhada, devagar e em silêncio, focando-se e observando o encontro da terra com os pés (através dos sapatos ou mesmo descalço). Preste atenção ao que o rodeia, sejam os insetos, o céu ou outros elementos naturais. Inicialmente pode ser difícil, pois a mente voa rapidamente para o passado e para o futuro, mas com o tempo torna-se terapêutico.


Comer de forma contemplativa

Temos, habitualmente, tendência a distrair-nos durante as refeições. É normal abrirmos as redes sociais ou um site de notícias enquanto almoçamos. Em alternativa, defina uma refeição por dia para comer em silêncio, talvez até de olhos fechados, degustando cada garfada devagar e de maneira profundamente contemplativa. Que texturas e sabores têm? Que sensações lhe desperta? 

Atividade que alimentam a mente, o corpo e a alma

Atividades como artes marciais e yoga não têm apenas componentes físicos, mas também mentais e emocionais. Permitem que se ligue a si mesmo mais profundamente. 


Escreva (em papel!)

Reserve alguns minutos para registar os seus pensamentos, sentimentos e observações num caderno. É seu diário particular, que ninguém vai olhar, validar ou criticar, pelo que pode ser honesto e verdadeiro. 


Práticas meditativas mais formais

Há uma analogia poderosa: imagine um copo cheio de água suja. Quando se agita o copo, o líquido parece escuro e enlameado. Mas, se poisar o copo e o deixar repousar, a sujidade começa a aglomerar-se no fundo e o restante conteúdo fica mais límpido. É isso que acontece durante a meditação: os nossos pensamentos, julgamentos e sentimentos começam a acalmar-se. Temos atualmente ao nosso dispor, através da internet, bastantes meditações guiadas, assim como exercícios respiratórios guiados, que o podem ajudar a começar a prática da meditação.


 

[i] O nome real do autor

 

Artigo escrito por Magda Martins, Assessora de Formação Inicial e Professora de Português, e Marta Mendes, Psicóloga e responsável pelo gabinete Talent Spot

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