Publicado em

11 de junho de 2020

Escola do Turismo de Portugal //

Porto

O turismo acessível e o oportuno e ainda inexplorado encadeamento socioeconómico
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Criação de ressonâncias no turismo acessível

Sinergias entre o turismoacessível a equidade, inclusão e diferenciação


O desenvolvimento de estratégias em instalações turísticas acessíveis é um tema que tem ganho expressão nos media e nas agendas de turismo globais notórios em campanhas e galardões respeitantes à acessibilidade. A saliência em torno da atratividade do poder de captação de destinos como o português, para viagens acessíveis, implica o reconhecimento da ocorrência de alterações reforçadoras da implementação de medidas fomentadoras da acessibilidade. Estou consciente, dada a minha experiência como docente e como investigadora, que um fator primordial na obtenção de benefícios económicos, na indústria do turismo deve criar experiências positivas no visitante ressonantes ao longo dos elos da cadeia de produção de valor. Por conseguinte, indústria do turismo deve prestar atenção a todos os elementos intervenientes, nomeadamente a acessibilidade em virtude da sua abrangência em todos os mercados turísticos, incluindo os seniores e as pessoas com deficiência.


Definição de turismo acessível


O segmento em causa permite às pessoas com diversidade funcional e capacidades restringidas, incluindo mobilidade, visão, audição, doenças crónicas e incapacidades cognitivas acederem com autonomia, equidade e dignidade aos serviços e produtos proporcionados por esta indústria através do gizamento de ambientes, facilitadores e serviços equacionados pelos princípios do design universal. Esta proposta de definição abarca “todas as pessoas que viajem com crianças em carrinhos de bebé, pessoas com deficiência e idosos” (Darcy e Dickson, 2009, p.34). Portanto, é admissível pensar que o turismo acessível envolve qualquer segmento do mercado que prefira aceder a uma experiência de turismo desprovida de obstáculos, porque não se trata apenas da inserção de rampas, elevadores, sinalética e pisos táteis. Recordo, a este propósito que o termo deficiência equivale a um construto, isto é, a uma noção compósita de ideias sobre a funcionalidade dos órgãos e desempenho da corporalidade, que excede a mobilidade.


Lembro, recorrendo aos objetivos da ENAT, a Rede Europeia de Turismo Acessível, os elementos suscetíveis de constar no turismo acessível:

- Destinos sem barreiras, incorporando infraestruturas e instalações;

- Transportes aéreos, terrestres e marítimos, para todos os clientes;

- Serviços de alta qualidade exercidos por funcionários devidamente formados;

- Atividades, exposições, atrações de modo a permitir a participação de todos;

- Marketing, sistemas de reservas, sites e serviços onde constem informações acessíveis a todos.


A leitura daqueles elementos pode conduzir à conclusão que o seu seguimento escrupuloso determinará o sucesso de práticas excelsas no domínio do turismo acessível. No entanto, os esforços concernentes à redescoberta de fundamentações para encadearmos a acessibilidade ao turismo dimana do facto de a relação com as pessoas com deficiência depender de uma assunção socialmente preconcebida da deficiência, que tem sido objeto, ao longo do tempo, de um vasto processo de incessantes desconstruções e reconstruções conceptuais. Determinada a não incorrer em justificações exaustivas, incompatíveis com um artigo desta natureza, apresento abaixo alguns argumentos comummente empregues para tolher o reconhecimento exponencial do turismo acessível, além de elencar algumas sugestões passíveis de contribuírem para a constatação das incessantes mais-valias atribuíveis a este ramo turístico.


Saliento que as perguntas norteadoras do meu trabalho e da pesquisa sobre acessibilidade em geral, envolvem estudos sobre a deficiência e principalmente sobre turismo acessível, porque as informações provenientes de outras áreas disciplinares fornecem boas ferramentas conceptuais para analisar o enredamento informativo desta área. Sublinho, concomitantemente com esse raciocínio, que numa fase inicial da lecionação, tendo a destacar a importância da obtenção de informação válida sobre acessibilidade num contexto turístico para viajantes com deficiência. Desse modo, costumo estimular os formandos a refletirem sobre a melhoria de um destino acessível apoiado em informações disponibilizadas pelas instituições em estudo referentes à acessibilidade.


Incido, noutra fase da lecionação, à análise da influência que as informações sobre acessibilidade podem ter no processo de tomada de decisão dos viajantes. Defendo com este posicionamento que caso os elos da cadeia de acessibilidade turística sejam perpetuados de modo a manterem a descontinuidade entre serviços devido à escassa informação ou formação insuficiente para acolher os turistas carentes de ofertas consistentes com as suas necessidades, repercurtir-se-á em obstáculos às deslocações para férias das pessoas com capacidades restringidas. A constatação da permanência dessas barreiras não deve esquecer que uma pessoa com deficiência tem os mesmos direitos de uma pessoa sem deficiências, todavia a intensidade da sua participação social associa-se a fatores criados para compensarem as suas diferenças a nível funcional. Necessitam, portanto, de indicações, facilitadores ou mediadores específicos, auxílios técnicos, meios de transporte adaptados e ajuda humana (Blaho-Poncé, 2012: 200).


Os aludidos fatores de compensação requerem uma abordagem holística da cadeia turística e dos serviços adaptados, pois a permissão do acesso aos destinos locais ou territórios turísticos exige mudanças na perceção da deficiência e consequentemente na promoção do turismo acessível como sendo o pináculo das práticas do desenvolvimento equitativo. A aquisição de uma reconceptualização cultural em torno da deficiência e até da acessibilidade turística basear-se-á num método de averiguação sistemático, que permita a obtenção de todas as dimensões da variável acessibilidade transpostas para informações elementares suficientes para identificar elementos cruciais para a mensurar. Com efeito, deve ser adotada uma abordagem de análise crítica construtiva ordenada de modo a determinar os eixos prioritários de uma política coordenada sobre a acessibilidade de um lugar ou destino, de modo a serem viabilizadas respostas a questões como as seguintes:


Quais os transportes adaptados?

A entrada no estabelecimento é acessível?

Como o turista/viajante pode ser assegurado da acessibilidade das infraestruturas?

Como obter uma descrição dos serviços existentes a fim de calcular o grau de acessibilidade?

Quais os facilitadores a nível do alojamento?

Qual o método de evacuação perante uma situação de emergência?

A quem poderão ser solicitadas informações sobre a acessibilidade existente nos restaurantes?

A quem poderão ser solicitadas informações sobre a acessibilidade existente nas lojas?

Os auditórios dispõem de condições de acessibilidade?

Onde poderão ser adquiridas informações sobre instituições patrimoniais acessíveis?

De que modo poderão ser obtidas informações acessíveis sobre as atividades culturais?


Evidencio, em jeito conclusivo, que a fruição de atividades turísticas validadas pela autonomia, dignidade e equidade é advogada na Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiências, na qual é renegada a ideia daquelas como sendo ineficientes e incapazes. Sendo substituída pela ótica do ser humano íntegro. Ideia essa de integridade, inclusão e solidariedade que será tanto mais concreta quanto maior for o cumprimento dos artigos do Código Mundial de Ética do Turismo e mais intenso for o envolvimento de todos para assegurar respostas ressonantes a qualquer um dos seres humanos que delas esteja carente.


Autoria: Hélia Filipe Saraiva


Bibliografia

Blaho-Ponce, C. (2013). “La chaîne d’accessibilité, pivot de l’accès au Tourisme Handicap”. Téoros, 32 (2), 104–115.

Darcy, S., Dickson, T. (2009). “A Whole-of-Life Approach to Tourism: The Case for Accessible Tourism Experiences”. Journal of Hospitality and Tourism Management, 16(1), 32-44.

ENAT - European Network for Accessible Tourism – http://www.accessibletourism.org

World Tourism Organization and Fundación ACS. (2015). Manual on Accessible Tourism for All – Public-Private Partnerships and Good Practices, Madrid: UNWTO.

Zajadacz, A (2015). Evolution of models of disability as a basis for further policy changes in accessible tourism. Journal of Tourism Futures, 1(3) pp. 189 – 202

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