Publicado em

23 de Setembro de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Douro - Lamego

Os Bolos de Azeite da minha Avó

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Cresci na Beira Alta, na aldeia dos meus avós, a mergulhar no rio gelado, a comer ameixas, amoras, pêssegos, laranjas… tudo apanhado das árvores à beira dos caminhos. Cresci no meio dos pinhais, dos animais, das vindimas, da apanha da batata, das castanhas, do milho, do mel, da azeitona…


Ia de trator, com os cabelos ao vento, e perguntava: “Oh ‘vô, hoje posso conduzir?” e lá me levava ele ao colo, eu de mãos no volante toda satisfeita, em direção ao olival carregado que esperava os varejadores e os toldos. E nós, as crianças, de baldes na mão, apanhávamos as azeitonas que se perdiam pelos cantos, debaixo das folhas e nos buracos dos muros.


E à noite, depois da azeitona apanhada, juntávamo-nos à volta da lareira, a ripar os ramos cheios de azeitona e a alimentar a lareira que soltava faíscas furiosas de cada vez que um dos ramos lá caía, e falávamos do dia, do trabalho, da quantidade da azeitona e do azeite que iríamos ter esse ano. E a minha avó dizia que os bolos de azeite desse ano iam ser melhores que os do ano anterior, porque a azeitona era boa! E a mim crescia-me a água na boca com o pensamento nos bolos de azeite que viriam na Páscoa e, no dia seguinte, ia com mais vontade apanhar a azeitona, quanto mais azeitonas mais azeite, mais bolos!


E chegava depois a casa, na cidade, toda suja, cansada, mordida pelos insetos, mas feliz.  Tão feliz que o meu sono vinha rápido, logo após o pôr-do-sol. Os monstros das outras noites, que me mantinham acordada até de madrugada com medo do escuro, desapareciam no meio das oliveiras e do sol que me tinham acompanhado o dia todo… e adormecia com o pensamento, claro, no azeite e nos bolos que íamos fazer.


Quando chegava a Páscoa, já sabíamos o que nos esperava. Ir à mata, apanhar pinhas e paus para acender o fogo no forno, e amassar os bolos. Ia a família toda. Amassar bolos é duro, a tarde inteira a bater os bolos no alguidar de madeira, cada um a bater à vez, porque ficávamos cansados depois de meia hora a amassar à força de braços, porque os bolos tinham que ficar muito bem amassados para depois crescerem bem…


Depois era só deixar levedar, perto do forno para receberem o calor que já se começava a sentir, para ser mais rápido, para os metermos ao forno e esperarmos os bolos dourados e comermos (quentes não porque fazem mal! – dizia a avó) com uma bela fatia de queijo e/ou marmelada, ou com manteiga só. Era a recompensa de todo o trabalho que tinha começado com a apanha da azeitona há uns meses…


Depois cresci, crescemos todos! Envelhecemos, afastámo-nos, começámos a trabalhar… e o tempo para os bolos perdeu-se na agitação do trabalho… perdi a minha avó, perdi as noites à lareira, perdi as tardes a bater os bolos, perdi os risos de criança e a felicidade de ver os primos e “só fazer asneiras”, como diziam os meus avós.


De vez em quando ainda regresso, e perco-me a apanhar pinhas para a lareira, com saudades das conversas noturnas com a minha família, a olhar para as oliveiras e a pensar que ainda tenho a receita dos bolos de azeite em casa, naquele livro de receitas da minha avó… e que seria tão bom encher, de novo, os potes de azeite dourado (melhor que o do ano anterior, como dizia sempre a avó) e chamar quem ainda nos resta para nos juntarmos a bater os bolos de azeite…




Autor: Sílvia da Fonseca, docente de língua francesa e inglesa

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