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Escola do Turismo de Portugal //

Estoril

Os Desafios de Ensinar Turismo Sem Poder Sair de Casa!
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Quando no dia 4 de março deste ano pandémico, me reuni com os meus alunos do curso de Turismo Cultural e Património no Jardim de Évora para dar inicio a mais uma visita de estudo, mal imaginaríamos (e falo igualmente aqui em nome dos meus alunos) que o semestre para o qual havia já tantos planos, como por exemplo algumas aulas de formação prática em Itinerários e Informação Turística com público real, aplicando o inglês e o espanhol na comunicação dos conteúdos trabalhados, passaria a acontecer por detrás de um ecrã! De facto, nunca tal desafio nos tinha sido apresentado e nem sequer para ele estávamos minimamente preparados… E, quando tal repto nos foi imposto, dei por mim a perguntar: “Como será possível ensinar turismo sem poder sair de casa?”.

Pois bem, sendo para mim o Turismo uma actividade sinónima de Viagem, de Descoberta, de Ida mas também de Volta, de Experiências, de Impressões e de Memórias, conseguir estimular nos meus alunos as sensações de ir à descoberta de uma nova experiência e voltar para contar o que foi, sem poder ir, sem poder estar, sem poder sentir os lugares, as suas histórias, as suas culturas e patrimónios era um enorme desafio! E, logo eu que procuro sempre aliar a teoria à prática, partindo para o terreno, munida de mapas, folhetos e telemóvel para as infindáveis fotografias que, às páginas tantas, os alunos já sabem que não vão deixar de acontecer e que servirão para mais tarde recordar; como iria então “descalçar esta bota”? Como iria conseguir transmitir a paixão de percorrer lugares, preparar alunos para a descoberta dos mesmos e levá-los a conceber produtos turísticos, se iríamos ficar retidos em nossas casas? E, mais uma vez questionei: “Como será possível ensinar turismo sem poder sair de casa?”.

Ora, com a imaginação de quem enseja, mas não pode e com recurso ao que desde que existe, nos ajuda também a planear: a Internet…mas sem esquecer o que já tinha sido transmitido nas aulas e que numa lógica de transversalidade serviria de apoio ao que ainda estava por desenvolver.

Em primeiro lugar, houve que alterar o que se tinha planificado e adaptar os conteúdos mais práticos, como simulações em contexto real e visitas de exploração no terreno, a um cenário de e-learning…

De seguida, cativar para esta modalidade de ensino estes alunos que tinham escolhido o Turismo Cultural e Património pelo que o tema do curso só por si representava: uma oportunidade para desenvolver competências e adquirir conhecimentos práticos de quem terá a responsabilidade de conhecer e comunicar património num contacto próximo e directo com o público turista, fosse ele nacional ou internacional. Mas, se até então já muito se tinha alcançado, debalde, diria Eça de Queirós… pois com o confinamento obrigatório, nem as aulas, quanto mais as experiências de aprendizagem prática,deixariam que os olhos nos olhos, tão desejados no contacto directo, fossem para além da câmara do computador… e quando havia câmara!!; sim, porque esse foi outro desafio destes tempos.. e, afinal, só perante as ausências se sente a falta do que não se tem.

Felizmente, e no caso da turma que desde Outubro de 2019 frequenta este curso na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, o entusiasmo não esmoreceu e até trouxe um tempo de maior partilha e de apurada reflexão que redundaria no final do semestre em trabalhos de concepção e desenvolvimento de conteúdos para produtos turísticos muito interessantes e com boas perspectivas de implementação e avaliação no próximo período de aulas previsto para começar em Outubro próximo.

Mas, como é que tudo decorreu, afinal? Como é que se conseguiu então ensinar turismo sem poder sair de casa?

Mais do que ensinar, passou-se a orientar… e mais do que sair de casa, passou-se a mostrar os lugares que se gostaria de conhecer através do que outros que sobre os mesmos já tinham discorrido para que aos alunos fosse dada a oportunidade para interpretar e de seguida propor formas de explorar o que já existe e está à disposição do viajante que quer visitar.

Ao longo de quase 4 meses, tempo que durou esta coordenação da aprendizagem das matérias, tive a preocupação em dar a continuidade iniciada ainda na sala de aula, mostrando mais modelos de gestão de projectos de turismo cultural, recorrendo para isso aos sites das entidades que em Portugal os tem desenvolvido, mas também reforçando o reconhecimento da existência de alguns deles aquando da nossa participação em encontros como o Fórum Turismo de Palmela ou através da leitura de artigos publicados em lugar próprio (Revista AlMadan, por exemplo); difícil… pois para além de se passar horas em frente ao ecrã do computador para “ver” os alunos, para “sentir” as suas angústias, ainda se continuariam mais horas (os alunos e eu) a trabalhar para apresentar resultados que permitissem continuar a orientar a concepção e desenvolvimento de trabalhos individuais mas também de grupo, aliando temáticas como a Gestão de Projectos à Informação Turística e aos Itinerários Turísticos;mas só assim.. criando a simbiose entre os temas se poderia vir a garantir o máximo de estímulo para a concretização de propostas, alvo futuro de avaliação mediante apresentação online.

Durante este período, os alunos conseguiram surpreender, pois conseguiram criar sites, organizar itinerários, apresentar propostas de comercialização do produto, a partir da análise de mercado no território em estudo… tudo sem sair de casa, mas já a pensar na implementação,dinamização e na divulgação que nos novos tempos permitirá perceber a exequibilidade como se de um pré-estágio se tratasse!

Conseguiu-se, contra as expectativas iniciais e não obstante o cansaço emocional de todos os intervenientes neste processo complexo, chegar a bom porto, neste caminho sinuoso de estradas internéticas e“on the line”. Resilientemente, e acreditando que perante as adversidades é que se conseguem resultados de génio, restou-nos a vontade na certeza de que o próximo semestre permitirá de alguma forma dar seguimento ao que se concebeu,mas que se deseja concretizar em presença física, e com a renovação de oportunidades de sair de casa e ir aos lugares.. conhecer in loco e não online o que se quer reconhecer como um recurso turístico, mas que é em primeiro lugar um recurso patrimonial do sítio. Não há nada mais fantástico do que Caminhar, Cheirar, Sentir o Lugar que tem Memória, Cultura para aí atrair seja por via de produtos turísticos ou de workshops de educação patrimonial o Viajante incauto que de repente passa a ter como seu aquele que era um espaço de outrem…

Em conclusão e dando resposta à pergunta inicial “Como será possível ensinar turismo sem poder sair de casa?” posso responder que se conseguiu cumprir com os objectivos curriculares e de aprendizagem, comprovados no caso desta turma pelos excelentes resultados obtidos no final… mas… não será com certeza um modelo a manter… a praticabilidade atribuída às disciplinas da componente tecnológica do curso é evidente, logo sem sair de casa não é possível ensinar o turismo.. apenas garantir que a vontade de ir não esmorece!

Não esqueçamos que esse foi afinal o motivo pelo qual surgiu o movimento da Grand Tour… complementar a aprendizagem dos livros, mas sair para conhecer o que os relatos escritos e imagens desenhadas mostravam, mas que não permitiam completar a mais valia do sentir e do animar. O ensino sem ânimo é fraco, o ensino sem interacção real não é estimulante! Este ensino confinado foi um ensino necessário, foi o que tivemos de aplicar, mas sem qualquer dúvida é um modelo de ensino inapropriado para a actividade que mais tem contribuído para a economia nacional, mas que acima de tudo e sem sombra de dúvidas mantém são o espírito aventureiro e que é um atractivo à Vida! Fazer Turismo é sair de casa… e ir Mesmo até onde os nossos sentidos nos deixarem ir! Ensinar Turismo é sair de casa e permitir despertar nos que querem aprender as competências para Fazer os outros quererem ir! #TuPodes!

 

Autoria:Cláudia Alexandre de Santos Inácio

Formadora e Coordenadora do CET Turismo Cultural e Património

na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril

 

Nota: a autora não segue o Acordo Ortográfico

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