Publicado em

4 de Março de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Porto

Pandemia e o Burnout - A importância da Inteligência Emocional em tempos de crise

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A Síndrome do Burnout não é um assunto novo. Caracterizada pelo esgotamento físico e mental intenso, é a resposta do corpo (e da mente) a um estado prolongado de stress, que ocorre quando o sujeito tenta adaptar-se a uma situação claramente desconfortável – sejam quais forem as razões deste desconforto (medo, inexperiência, cenários inéditos, insegurança, falta de conhecimento/habilidade, incerteza, inadaptabilidade, bullying, etc.). Em geral, é uma condição associada a pessoas em cargos de alta importância / responsabilidade, e profissionais das áreas de Saúde e Finanças, dada a natureza destas ocupações.


A novidade está, infelizmente, no alargamento da deteção de casos de Burnout na população em geral, decorrente dos efeitos do prolongamento da situação de Pandemia mundial. Com a perduração da incerteza, do medo e de problemas de saúde (física, mental e financeira), acabamos por estar, todos, sujeitos a padecer deste mal.


O stress

Ouve-se sempre que “o stress é a doença do século” – e não pretendo desmentir esta declaração. O stress chega cada vez mais cedo e é perigosamente silencioso. Porém, o que quero salientar é que o stress faz parte, também, das grandes conquistas e grandes avanços da humanidade e do indivíduo, e não deve ser, simplesmente, evitado. O stress atira-nos para fora da nossa zona de conforto. Conseguem imaginar o nível de stress de um atleta de alta performance, logo antes do apito de início de uma prova decisiva? E vale lembrar o frio na barriga quando pisamos pela primeira vez na nossa casa nova! Como podemos ver, as coisas boas também têm algum stress associado. Conclui-se, portanto, que pode ser tanto positivo (quando um desafio está a estimular-nos), quanto negativo (quando nos sentimos ameaçados). A verdade é que, como quase tudo na vida, o stress é bom quando bem doseado, e quando está sob (nosso) controlo.


O grande problema é que o conceito é facilmente confundido com emoções (em vez de “estou furioso” ou “frustrado”, diz-se comumente: “estou stressado”). O stress não é uma emoção, mas sim qualquer adaptação necessária para o nosso organismo adequar-se ao que estamos a sentir. O que se tem de trabalhar é a nossa capacidade de lidar com as nossas emoções, para diminuir o esforço do nosso corpo como um todo para adaptar-se (e, consequentemente, causar menos stress). E com esta afirmação eu começo, aqui, a introduzir o meu ponto: a importância da Inteligência Emocional no combate às causas que levam ao Burnout.


A Pandemia e o Burnout

Posto isto, voltemos aos tempos atuais. A Pandemia perdura há quase um ano em todo o mundo. Os seus efeitos são sentidos em vários níveis e esferas. E, o cidadão comum começa a sentir-se assoberbado. Há medos e incertezas em todos os sentidos, formas e intensidades (“conseguirei pagar minha renda?”, “tenho casamento marcado!”, “já não tenho poupanças”, “quando poderei ser operado?”, “como educar meus filhos em casa?”, “estou sedentário”, “como vou dar de comer aos meus filhos?”). Tudo ganha imensas proporções quando se está, assim, “esticado”. Efectivamente, a conjuntura que a Pandemia acarretou desequilibrou e muito a balança do bem-estar.


Já não há o café ao fim do dia com os amigos. Nem a mudança de ares das viagens. Não se vai ao ginásio promover a saúde (e, sejamos sinceros, socializar). Não se passeia nem vê-se as montras. As crianças não brincam umas com as outras (com isso, não se desenvolvem socialmente e cognitivamente como deveriam, e, convenhamos, não gastam a energia necessária para garantir a saúde mental dos pais). Toda a parte social e inspiradora de qualquer tipo de consumo foi anulada. Não há encontros. Não há beijos e abraços. Não se vê os sorrisos.


Tudo o que normalmente se faz para desanuviar e ventilar as ideias foi-nos tirado, diminuído ou adaptado. As pessoas andam extremamente sozinhas. Não há partilha. Estamos a empobrecer o nosso processo de aprendizagem, o que leva à sensação (que todos provavelmente já tivemos desde Março passado) de que vamos rebentar de dentro para fora a qualquer momento.


Tudo isso, junto, constitui o ambiente ideal para a proliferação de tudo o que nos leva ao limite. Tudo isso, pouco a pouco, leva-nos ao Burnout.


Daí, esta partilha. Daí a importância de percebermos o quanto o caminho para a “cura” está nas nossas mãos. Mais ainda: o caminho para irmos sendo felizes, todos os dias (ou na maioria deles), pois já devemos ter percebido que esperar o fim disto tudo para voltar a viver, é um desperdício. Daí ser essencial compreendermos que a Inteligência Emocional é a nossa maior arma no combate ao esgotamento massivo.


Mas, afinal, o que é Inteligência Emocional?

O termo já teria sido citado antes disso, mas foi em 1995, quando Daniel Goleman publicou “Inteligência Emocional - O livro que mudou o conceito de inteligência”, que o conceito for largamente conhecido.


Filho de professores universitários, graduado e Doutor em Psicologia pela Universidade de Harvard, indicado por duas vezes ao Prémio Pulitzer, Goleman foi editor do The New York Times por doze anos, mas foi quando percebeu que o que precisava escrever já não se enquadrava mais nas pautas que deveria seguir para o jornal, que escreveu o que viria a ser um bestseller, com mais de cinco milhões de cópias vendidas em todo o mundo, e traduzido para mais de 40 idiomas.


Goleman define, neste momento, o “embate” entre o QE (Quociente de Inteligência Emocional) e o QI (Quociente de Inteligência). Ele descreve a Inteligência Emocional como a capacidade de um indivíduo de identificar e gerir os seus próprios sentimentos e emoções e os dos outros, para expressá-los / aplicá-los de modo atempado, apropriado e eficaz. Mais especificamente, como um conjunto de competências e habilidades, que tem como alicerce o auto-conhecimento, a auto-regulação, a auto motivação, a empatia e as habilidades sociais.


Há ainda alguns domínios que circundam estes pilares, garantindo a sua solidez, como por exemplo: autocontrole, adaptabilidade, optimismo, boa gestão de conflitos, espírito de equipa, foco em resultados e visão global.


Pessoas que desenvolveram (sim, pois não é necessariamente um bem adquirido, e, mesmo sendo algo natural, deve ser trabalhado durante toda a nossa vida) um QE alto são reconhecidas pela sua generosidade, que tende a beneficiar o bem geral em detrimento do bem individual, e pelo sentimento de bem-estar que as norteia, já que pesquisas apontam para uma relação inversa entre capacidade de controlo emocional vs. stress.


A habilidade de identificar e gerir as suas próprias emoções (e as dos outros) são atributos valiosos também para alcançar sucesso profissional e social. Indivíduos com bons níveis de IE são ainda melhores líderes, e pessoas mais resilientes, que lidam melhor com frustrações.


Falando ainda das bases da IE, a auto motivação conduz ao optimismo. A principal diferença entre o pessimista e o optimista é que, na falha, os optimistas tendem a atribuir a causa a factores externos, específicos e temporários, enquanto os pessimistas atribuem a causas internas e permanentes. Isso permite ao otimista, após um contratempo, recompor-se mais facilmente e voltar a focar-se nos objetivos.


A importância da Inteligência Emocional em tempos de crise

Posto isto, volto ao cerne da questão: ser emocionalmente inteligente nos tempos desafiadores que vivemos pode ser a diferença entre sair disto mais forte e com um conjunto ainda maior de competências e habilidades, ou arrastar-se enquanto durar a Pandemia, e sair do outro lado deprimido e enfraquecido.


A aplicação dos princípios da IE permitem-nos olhar para um quadro menos positivo e “partir” as dificuldades em pequenas partes. Pôr o foco e o esforço não no sentimento negativo que percebemos, mas nas suas causas e sintomas – porque estes, sim, podemos combater… deixem-me explicar melhor a ideia. Vi as pessoas muito preocupadas quando a segunda vaga varreu Portugal. Relatos de dias de muita tensão, noites mal dormidas, e dias em que se sentiam enjoadas durante o tempo todo. Quando se perguntava o que estava a acontecer, a resposta era sempre algo como: “ando muito aflito(a) com isto tudo”. Este é, sem dúvida, um sentimento avassalador. É essencial perceber que o que precisamos é procurar as causas do que nos aflige. Comumente, o primeiro claro motivo para tanta ansiedade é o medo que temos do que pode acontecer à nossa saúde financeira. Ah… aí já se pode fazer qualquer coisa! Pois eu posso não ter a cura do Covid nem a patente da vacina, mas ainda sei encontrar formas de gastar menos, ou gerar receita de alguma maneira. O simples facto de quebrar um sentimento assustador (“não sei quando a Pandemia termina e o que acontecerá comigo até lá”), em pequenas causas de stress ("tenho medo adoecer”, “preocupam-me os meus pais”, “estou sem trabalho”, …), permite pensar em pequenas ações (procurar alimentar-me melhor e fazer atividade física, estar sempre o mais em contacto possível com as pessoas que amo, dar entrada a pedidos de Apoios aos quais os Trabalhadores Independentes com quebra de faturação têm direito, …), que nos aliviam o fardo, e que essas, sim, podemos realizar. Baby steps...


A IE é justamente o gap entre perceber que não estamos bem, e, em análise, descobrir quais são as tais pequenas atitudes que, juntas, devolvem-nos o sentimento de Fé e Segurança que a atual conjuntura nos tirou. A capacidade de avaliar os nossos sentimentos, relacionar com causas, focar em resultados e, quando preciso, pedir ajuda, reside nas valências da IE, como o auto-conhecimento, a auto motivação e as competências sociais.


É possível encontrar ainda, na nossa “mala de ferramentas de IE”, ações acessórias, que, sozinhas, talvez não surtam o efeito necessário, mas que, em conjunto com as atitudes já citadas, reforçam uma série de atitudes e sentimentos que acabam por dar mais consistência à mentalidade que queremos adoptar. A mais benéfica, sem sombra de dúvidas, é ajudar o próximo. Sem falar do bem que pode fazer ao outro, esta postura tem efeitos físicos no nosso cérebro, em áreas ligadas ao stress e à sensação de recompensa, o que pode trazer benefícios à saúde física e mental. Cuidar de si, sentir-se bonito(a), ter a casa em ordem, meditar, estar de alguma maneira em contacto com a natureza, ligar para um amigo… muitos são os hábitos que nos trazem uma sensação de pertença e aconchego, e reforçam a fortaleza que procuramos construir, fortaleza esta que deve ter um sistema de defesa smart, de última geração, já que, na maioria das vezes, a sabotagem vem mesmo de dentro.


Muitas pessoas questionam o poder da mente, e a sua capacidade de escolher não o que vão sentir (porque isso nem é saudável), mas o que farão com o que sentem. Deixo aqui um exemplo extraordinariamente simples da força do nosso pensamento: imagine uma coisa que adore comer, daquelas que seria a sua última ceia. Salivou? Então demonstrei o que pretendia: se eu sou capaz de manipular o meu corpo para produzir fluídos com uma simples reflexão, eu sou capaz de tudo!

Por fim, queria dizer que se formos (emocionalmente) inteligentes, não desejaremos, no fim da Pandemia, a nossa “vida normal” de volta. Desejaremos uma vida muito, mas muito melhor. Mais consciente. Mais valorizada. Não devemos voltar a ser os mesmos… seria um desperdício. Levaremos connosco novas capacidades e competências, e a certeza de que aguentamos muito mais do que podíamos sonhar… Há sensação mais poderosa e libertadora do que esta?


P.S.: voltem a fazer planos.


Autoria:

Cláudia Mokdisse

Formadora na EHTP de Staffing & Career Management e de Liderança e Gestão de Carreiras

Coordenadora de Recursos Humanos no Hotel Crowne Plaza Porto


Ilustração por 588ku em https://pt.pngtree.com

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