Publicado em

9 de Dezembro de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Porto

Pensar Turismo é Pensar o Planeta, é Pensar a Humanidade!

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Conscientes do seu papel enquanto agentes de mudança, muitos são os órgãos públicos e instituições privadas nos mais diversos destinos turísticos que reconhecem a importância de um planeamento que privilegie o princípio fundamental da sustentabilidade, dir-se-ia mesmo concertada ou integrada, mais ainda face ao contexto que atualmente enfrentamos de pandemia e de crise ambiental.


Bases para a gestão dos destinos turísticos

Os princípios que regem uma das abordagens mais interessantes associada ao planeamento turístico (que entretanto evolui para outras abordagens mais específicas), a da “capacidade de carga turística” que coloca no centro da planificação as caraterísticas, capacidades e necessidades de todos os stakeholders (partes interessadas como por exemplo os próprios residentes locais, os empresários do setor e órgãos estatais) no destino turístico e do próprio ambiente onde estes se inserem, certamente estão na génese das análises e consequentes abordagens estratégicas mais recentes que são realizadas atualmente ao nível da gestão dos destinos turísticos.

A partir do momento em que se tenta determinar o número de turistas que um determinado destino turístico consegue suportar, apesar de se reconhecer a constante evolução dos destinos turísticos e respetivos contextos socioeconómicos e infraestruturais, está-se a construir uma base de trabalho relevante e adequada para um planeamento estratégico promotor da sustentabilidade tão vital…

Um exemplo prático verificou-se na cidade do Porto, Portugal, na qual foi identificado o escalar galopante da oferta de alojamentos locais (AL) no centro da cidade e que fez soar os alarmes nas mentes dos portuenses, algo que ainda hoje paira como ameaça à identidade da própria cidade devido à migração da comunidade residente para fora da cidade… Apesar de ter faltado alguma capacidade de antecipação por parte das autoridades locais, estas implementaram medidas com o intuito de abrandar significativamente tal tendência assim que a mesma foi identificada.


Os indicadores europeus

Para reforçar a importância dos princípios inicialmente referidos, cita-se de seguida um texto que consta num dos trabalhos levados a cabo pela Comissão Europeia:

“A Comissão Europeia lançou o ETIS (Sistema Europeu de Indicadores Turísticos) em 2013 com o objetivo de ajudar os destinos a monitorizar e medir os seus desempenhos ao nível da sustentabilidade do turismo, com recurso a uma abordagem comparativa comum… subdivididos em quatro categorias: gestão do destino turístico, impacto social e cultural, valor económico e impacto ambiental.”

Tal iniciativa reflete a importância que as questões da gestão e planeamento turístico integrado em prol da sustentabilidade dos diferentes destinos turísticos já ocupam ao nível da União Europeia e as quais podem e devem servir como exemplo para a definição de uma abordagem similar com indicadores adicionais ou alternativos para toda a sociedade, tal é a pertinência e adequação desta abordagem.


Do contexto micro ao contexto global

A reforçar a importância do trabalho de análise e planeamento estratégico do turismo, enquanto referência de boa prática para a governação geral, entenda-se ao nível intermédio de um país e ao nível macro do planeta, temos os “níveis de planeamento” (Figura 1), uma análise que coloca em perspetiva, aparentemente de forma muito simples, a importância que os diferentes contextos ocupam para a fundamental análise e planificação holística do setor do turismo, tendo em consideração a importância da concertação estratégica que vai desde o “player” mais pequeno até ao organismo máximo do turismo a nível mundial, e que por si é logicamente esclarecedor quanto à importância de se ter essa mesma abordagem holística para a governação das sociedades.

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No âmbito desta visão holística mas ainda na perspetiva do turismo, de referir o papel ativo, nível de envolvimento e importância que a Organização Mundial do Turismo está a ter para garantir a sustentabilidade do turismo e mesmo do próprio planeta, enquanto uma das principais entidades dinamizadoras da implementação dos 17 ODS (Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável), definidos em 2015 pelos líderes mundiais, que convidamos a consultar em https://www.ods.pt/. Ao chamar a si essa responsabilidade a OMT concretiza a visão integrada a nível global da sustentabilidade de todo o setor.


Casos de sucesso e capacidade de adaptação do turismo

Das variadas provas do sucesso das estratégias e planificações do setor do turismo, destacam-se as taxas de crescimento verificadas ao longo dos últimos anos (pré-pandemia) dos diferentes destinos turísticos, a constatação de uma consciência quase comum dos diferentes stakeholders para a importância da componente da sustentabilidade e ainda a capacidade de resiliência que tem sido demonstrada ao longo deste período pandémico pelos players do setor, e respetivas equipas.

No entanto, a prova que importa destacar, e deveras encorajador, é perceber que muitos dos profissionais do setor do turismo assimilaram de forma tão rápida e efetiva os princípios fundamentais da sustentabilidade, que permitiu às organizações que estes integram de implementarem rapidamente novos processos e procedimentos de adaptação à nova realidade em plena pandemia o que, para além de lhes garantir a sobrevivência imediata, também constituem desde já vantagens competitivas relevantes que certamente contribuirão para aumentar significativamente a longevidade dessas mesmas organizações.

Dando seguimento à referida capacidade de assimilação e adaptação, é digno de destacar a linha de pensamento de profissionais do setor do turismo, que por verem posta em causa a sustentabilidade de determinados destinos turísticos (desde a qualidade de vida dos habitantes locais até à preservação da identidade dos próprios destinos), já avançam com propostas de redução (significativa) do número de turistas para esses mesmos destinos. Recuperemos a título de exemplo a cobertura jornalística dada à manifestação dos habitantes locais de Veneza, antes da pandemia, contra a chegada dos navio-cruzeiro! Este exemplo é perfeito para ilustrar como um destino turístico pode ser vítima do seu próprio sucesso ou, por outras palavras, um exemplo extremo que a linha de pensamento referida, poderá ajudar a prevenir que aconteça noutros destinos turísticos.


O impacto limitado do turismo

Porém, apesar de ser reconhecido pela grande maioria das populações que o setor do turismo é um motor de mudança das sociedades e de ser certo que as estratégias que forem implementadas pelo setor do turismo fomentarão uma melhor gestão dos destinos turísticos e produzirão impactos para além do setor em si, criando repercussões em tudo aquilo que direta ou indiretamente lhe está ligado, esse também será o seu limite! Por outras palavras, não faz sentido nem é estrategicamente recomendado que o setor de turismo de um qualquer destino turístico fique com a responsabilidade de promover todas as alterações que uma determinada sociedade necessita.

Por conseguinte e tendo em conta as várias crises a nível mundial que se verificam e que se começam a revelar, nomeadamente a crise climática que atualmente enfrentamos, é importante acelerar significativamente todo o processo de análise estratégica integrada de forma a agilizar de forma significativa os processos de planificação e governação das sociedades!


O contexto das sociedades

Transpondo a abordagem do turismo para um contexto mais lato, podemos para tal também recorrer aos “Níveis de Planeamento” que atualmente orientam a análise e planificação do turismo, para que também as sociedades de forma concertada/ integrada passem os testes de carga que enfrentam diariamente, muitas delas com dificuldade e sofrimento! São variados os exemplos que podem ser referidos, mas seleciono os elevados índices de poluição na China, a pressão populacional na Índia, a instabilidade social criada por governantes com estratégias e políticas questionáveis (…), já para não falar dos países em contexto de guerra civil…

Para tal é crucial identificar prioridades, novos e antigos indicadores, e respetivas interligações, para que as respetivas análises contribuam para uma caraterização muito mais precisa da realidade atual das diferentes sociedades à luz dos desafios mais urgentes, possibilitando aos stakeholders das mesmas processos de planificação e intervenções muito mais eficazes, pondo de lado as práticas, ainda, correntes que se baseiam na leitura de indicadores desagregados de natureza essencialmente estatística, alguns dos quais possíveis de “gerir criativamente”, as quais pouco contribuem para o processo de intervenção social e governação vitais para fazer face aos desafios globais inicialmente referidos.

E, assim como o turismo cria impactos que ultrapassam a sua ação direta, é expectável que as governações das sociedades melhor governadas possam impactar de forma positiva nas sociedades com mais dificuldades…


Uma proposta para a governação sustentável

Por conseguinte e com o intuito de dar um passo na referida direção, apresenta-se de seguida uma proposta em desenvolvimento aplicável ao contexto de um país, a qual teve como inspiração a pirâmide de Maslow e a hierarquia das necessidades do indivíduo, que por sua vez propõe uma hierarquização das prioridades para a governação sustentável das sociedades.

Assim, nesta Pirâmide da Governação  (Figura 2), tal como a pirâmide de Maslow, considera-se que só se deverá priorizar os patamares superiores da pirâmide, depois de consolidados os patamares inferiores. De esclarecer desde já que não se propõem o não investimento em todos os patamares, mas sim que a prioridade estratégica e necessária alocação de recursos seja para o patamar mais importante no momento de desenvolvimento do país em questão.


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Analisando:

- Ao colocar na base “Defesa e Diplomacia” significa que para existir uma nação autónoma, esta necessita de o garantir/ preservar através das suas próprias forças de defesa ou através de parcerias com outras nações

- No segundo patamar aparece “Justiça e Segurança” pois para que essa mesma nação possa funcionar e crescer, é vital uma adequada definição de leis para orientar uma vida em sociedade justa e igualitária, bem como as respetivas forças da ordem para garantirem a sua aplicação

- No terceiro patamar aparece o ambiente onde essa mesma sociedade possa existir com qualidade de vida.

Quanto aos restantes patamares da pirâmide, e reconhecendo que poderão gerar maiores argumentações a favor e contra as respetivas posições, a apresentar em trabalho separado, os elementos na base desta Pirâmide da Governação são dificilmente contestáveis.

Com base nesta abordagem estratégica à governação, dever-se-á passar à definição de indicadores específicos e transversais aos diferentes patamares identificados, com o intuito de garantir uma análise integrada da sociedade e, por conseguinte, proporcionar um melhor processo de tomada de decisões estratégicas/ governativas. Ao aplicar este tipo de metodologia os reais impactos de medidas aparentemente específicas e de impacto limitado, serão muito mais evidentes.

A título de exemplo podemos considerar a obrigatoriedade ou a forte recomendação da implementação do teletrabalho, ou trabalho remoto, em todas as organizações cujas funções o permitissem. Apesar desta medida ter sido implementada essencialmente com o intuito de tentar controlar a propagação da COVID-19, que por si só teve impacto em dois dos patamares identificados, Saúde e Trabalho e Solidariedade Social, o impacto e as vantagens da mesma foram evidentes ao nível de outros patamares identificados na Pirâmide da Governação, nomeadamente ao nível ambiental com a redução do tráfego automóvel e consequente redução da poluição atmosférica.

Reforçando a importância desta abordagem consideremos ainda os casos de justiça mais mediáticos envolvendo algumas entidades bancárias e seus gestores, os quais certamente teriam sido identificados muito mais cedo caso as forças da lei e da ordem tivessem mais recursos para fazerem o seu trabalho de forma adequada! Imaginemos os milhares de milhões de euros que o sistema bancário custou aos contribuintes portugueses e o impacto, certamente positivo e determinante para o desenvolvimento do país, caso esse dinheiro tivesse sido investido na sociedade, impactos que certamente seriam transversais a vários patamares da Pirâmide da Governação.


Conclusão

Em suma, perante as evidentes mais-valias e impactos positivos das abordagens integradas protagonizadas pelo setor do turismo no seu todo, apesar dos limites identificados, têm um efetivo impacto a nível planetário.

Por conseguinte, os órgãos governativos das diferentes sociedades devem de olhar para o turismo como um exemplo a seguir mediante os resultados alcançados por este, de forma a concretizarem a referida consciência e estratégias, para aplicarmos nas sociedades (cidades, regiões e/ou países), pois afinal de contas não há planeta B!


Autor:

José Costa Carvalho

Docente de Marketing Turístico, Marketing Digital e Responsável de Comunicação na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto


Fontes:

- Costa.2014. Níveis de Planeamento in Luís Ferreira. 2018. Conteúdos de Planeamento de Destinos Turísticos. Pós-Graduação em Turismo e Gestão Hoteleira. ISCET

- Nuno Pereira. 2016. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) - BCSD Portugal. ODS. https://www.ods.pt/

- The European Tourism Indicator System - ETIS toolkit for sustainable destination management. 2016. Luxembourg: Publications Office of the European Union

- Tourism for SDGs – Welcome To The Tourism For SDGs Platform! n.d. https://tourism4sdgs.org/

- UNWTO. 2019. Unwto.org. https://www.unwto.org/

- Wikipedia Contributors. 2019, November 2. Tourism carrying capacity. Wikipedia. Wikimedia Foundation. https://en.wikipedia.org/wiki/Tourism_carrying_capacity 

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