Publicado em

23 de Dezembro de 2020

Escola do Turismo de Portugal //

Coimbra

Sustentabilidade do Turismo

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Sustentabilidade do Turismo para o crescimento económico no pós-COVID



Numa comunicação de agosto passado, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, realçava que o Turismo é um dos setores de atividade mais importantes à escala global, enquanto motor de desenvolvimento económico, empregando uma em cada dez pessoas no mundo. Por tudo isto, afirmava o quão doloroso é constatar o impacto devastador da pandemia causada pelo COVID-19.


De facto, só nos primeiros cinco meses de 2020, o desembarque de turistas desceu para metade e ter-se-ão perdido cerca de 320 biliões de dólares em exportações no setor. Esta posição de António Guterres tem particular relevância uma vez que tem sido um defensor, ao mais alto nível, de sociedades e economias mais sustentáveis, afirmando que o turismo desempenha um papel fundamental neste desafio, pelo impacto que tem em países desenvolvidos e, sobretudo, nos países em desenvolvimento, nas comunidades que acolhem os turistas e na preservação do património natural e cultural da humanidade.



Hoje, mais do que nunca, num quadro de crise global, o turismo pode dar um contributo para a concretização dos objetivos do desenvolvimento sustentável, impulsionando o desenvolvimento económico a par do bem-estar social e da preservação do meio ambiente. Esta visão implica um equilíbrio virtuoso entre a geração de lucros para o setor, a satisfação dos clientes, o envolvimento das comunidades que acolhem os turistas e a gestão ambiental eficiente.



À semelhança da maioria dos destinos turísticos, Portugal enfrenta grandes desafios para lidar com a atual crise gerada pela pandemia COVID-19. O nosso país é considerado um dos destinos turísticos mais competitivos e sustentáveis do mundo e foi distinguido recentemente como o melhor destino europeu pelos “Sustainable Top 100 Destination Awards”, liderados pela Green Destinations e que envolve 12 organizações internacionais na área do turismo sustentável. Nesta linha, na Estratégia Turismo 2027, lançada em 2017 pelo Turismo de Portugal I.P., onde estão definidos objetivos ambiciosos para os próximos 7 anos, a sustentabilidade aparece como princípio orientador.


Estou convencida de que o alinhamento da sustentabilidade e competitividade da atividade turística poderá ser conseguido com base em dois vetores fundamentais: a formação e a inovação.


Formação


A educação é vital para que as pessoas aprendam, aceitem e incorporem nas suas vidas os princípios da sustentabilidade. Em Portugal, são vários os exemplos de iniciativas formativas que procuram promover a construção de uma indústria do turismo cada vez mais sustentável e os frutos desta aposta começam já a sentir-se entre os profissionais do setor.



As Escolas de Hotelaria e Turismo (EHTs) do Turismo de Portugal têm vindo a fazer uma forte aposta em políticas de qualificação, formação e diversificação da oferta, essencialmente através da educação e formação dos seus alunos.


O tema da responsabilidade social, ambiental e económica tem vindo a ganhar destaque, inclusivamente, nas práticas de gestão das escolas. Desde 2009, que o relatório anual do programa de responsabilidade social e ambiental das EHTs reúne todos os dados relativos a estas ações. De facto, o Turismo de Portugal recebeu, em setembro de 2019, o Prémio de Responsabilidade Social, na categoria Comunitária, com o projeto "Uma Educação para a Responsabilidade". Esta distinção é o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nas EHTs no domínio da educação para a responsabilidade, a promoção do desenvolvimento sustentável das comunidades locais, pessoas, territórios, património cultural, ambiental e social.


Ao nível dos currículos, são proporcionadas aos alunos unidades de sustentabilidade no turismo; turismo acessível; intra-empreendedorismo; empreendedorismo e modelo de negócio em empreendedorismo e ética e protocolo empresarial. Isto tem permitido o desenvolvimento de um ambiente de negócios dotado de trabalhadores totalmente imersos nos valores de sustentabilidade.



Na vertente de formação para executivos, o Turismo de Portugal disponibiliza também diversos programas de formação e capacitação para os agentes do setor.


Muito recentemente lançou o Programa UPGRADE dirigido aos profissionais do turismo, com o objetivo de ajudar as pequenas e muito pequenas empresas a adquirirem conhecimentos e competências que lhes permitam preparar o futuro, estruturando os seus negócios com novas propostas de valor, mais sustentáveis e capazes de responder às exigências futuras do setor. Este programa de formação tem 2 percursos que se complementam: a transformação digital e a sustentabilidade. Ao participar neste Programa, as empresas podem obter financiamento junto do IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional no âmbito do Apoio Extraordinário à Retoma Progressiva de Atividade. Este programa é totalmente online e gratuito ajustando-se às necessidades, ao interesse e disponibilidade dos participantes.


O reconhecimento da qualidade do trabalho que o Turismo de Portugal tem vindo a desenvolver conduziu a que, neste mês de dezembro, Ana Paula Pais, diretora do Departamento de Formação do Turismo de Portugal, tivesse sido eleita para liderar o comité de formação online em turismo, da Organização Mundial do Turismo (OMT). A principal função deste comité é a de emitir conselhos e recomendações sobre as questões da educação em turismo, a todos os membros da OMT. A experiência do Turismo de Portugal na formação online que, tem sua expressão maior nas centenas de ações formativas organizadas durante 2020 e na criação da Academia Digital, serão fundamentais para disseminar esta aposta entre os membros da OMT e certamente que os temas da sustentabilidade farão parte dos programas propostos, à semelhança do que já acontece no nosso país.


Inovação

De acordo com o economista e professor universitário Joseph Schumpeter a inovação concretiza-se através da sua chegada ao mercado. Ou seja, compete aos empreendedores transformarem os novos bens e serviços em negócios geradores de lucro.

Para além dos benefícios a longo prazo conducentes à manutenção e regeneração dos ecossistemas, a inovação na área do turismo possibilita ganhos económicos associados à diminuição de desperdício, como a racionalização do consumo de água e de energia ou a reutilização de materiais e redução da produção de resíduos, sendo as poupanças quase imediatas. Modelos de negócio inovadores privilegiam a aproximação ao território e às suas gentes, refletem-se na procura por fornecedores locais e na contratação de staff da comunidade local, contribuindo desta forma para o desenvolvimento do meio envolvente e estimulando a empregabilidade e o bem-estar social.


Esta aposta poderá ter ainda mais impacto se considerarmos toda a cadeia de valor dos negócios de turismo. Os novos bens e serviços que estão a emergir em Portugal, correspondem a uma tendência que evidencia a incorporação dos valores da sustentabilidade nos negócios. Acelerar a sua chegada ao mercado nacional e global é a única estratégia para que o setor do turismo volte a crescer, com criação de emprego e de riqueza.


Ao nível do empreendedorismo e da inovação, Portugal conta com várias start-ups cujas soluções têm um impacto real na competitividade e sustentabilidade do setor do turismo.



A economia circular é num novo modelo para o desenvolvimento assente na diminuição de produção de resíduos que, ao invés de serem descartados, passam a ser vistos como potenciais subprodutos ou novos materiais da cadeia de fornecimento das empresas. Os resíduos são assim considerados recursos, o que se traduz na gestão eficiente dos recursos naturais e na diminuição dos custos dos desperdícios. Uma das start-ups que mais se tem destacado neste domínio é a EcoX https://www.ecox.pt/.

Esta empresa de base tecnológica é detentora de uma patente para a reciclagem de gorduras alimentares e lançou um programa pioneiro a nível mundial, Green Grease, para a valorização dos óleos alimentares usados. O programa Green Grease envolve a recolha dos óleos alimentares usados das empresas parceiras, óleos que a EcoX transformada em detergentes num modelo que se traduz em descontos para essas empresas. Adicionalmente o programa garante também que os estabelecimentos aderentes recebem certificados ecológicos devidamente reconhecidos pela associação ambientalista Quercus.



A sustentabilidade configura uma tendência de consumo e as práticas sustentáveis reforçam uma imagem positiva das empresas, pois a preocupações com o meio ambiente e com a sociedade promovem a empatia que gera o reconhecimento da comunidade e dos clientes mais exigentes. Não basta ser sustentável, é também muito importante comunicá-lo, envolvendo o turista nas ações, para que estas tenham visibilidade e consequências. A empresa tecnológica Tomi World https://tomiworld.com desenvolveu uma solução que promove o envolvimento entre turistas e a comunidade que os recebe. Trata-se do TOMI, um equipamento interativo de comunicação e informação urbana acessível a todos e destinado a turistas e cidadãos. O equipamento disponibiliza a informação sobre cultura, comércio local, serviços públicos, etc. em vários idiomas, estando já presente em cerca de 100 cidades portuguesas. Pelo seu contributo para o equilíbrio entre a procura turística e o bem-estar da comunidade, afirma-se como um exemplo de sustentabilidade social.


Para inovar há também que repensar o processo de inovação e foi o que fez Henry Chesbrough, professor da Universidade de Berkeley na Califórnia, quando publicou em 2003 o seu livro “Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology”.

Nesta obra, Chesbrough apresenta uma nova abordagem para a inovação, que designou de “Inovação Aberta”. Trata-se de uma abordagem colaborativa de inovação, que estende as fronteiras para fora de cada empresa individual e que procura a partilha de conhecimento e de soluções criativas com investigadores e empresas de base tecnológica (habitualmente startups).


A RIERC, Rede de Incubadoras de Empresas da Região Centro https://rierc.pt/, lançou recentemente um programa de Inovação Aberta, o NEWTON 4.0, em parceria o Turismo Centro Portugal e financiado pelo programa FIT Fostering Innovation in Tourism do Turismo de Portugal. O NEWTON tem como objetivo estimular a inovação e o empreendedorismo no setor do turismo da Região Centro, através da criação de projetos piloto que envolvam start-ups para resolver problemas reais de desafiadores/PMEs do sector. Dezenas de PMEs participaram já, lançando desafios, muitos dos quais relacionados com a sustentabilidade, que agora serão respondidos por 15 start-ups a selecionar até 10 de janeiro de 2021, num processo que decorrerá entre fevereiro e maio do próximo ano.


A visão para Portugal

A sustentabilidade e a competitividade andam de mãos dadas. Ao operacionalizar o turismo sustentável, enquanto ferramenta para o desenvolvimento do país, Portugal irá preservar os seus recursos naturais e culturais e a sua autenticidade enquanto destino, criando empregos de qualidade, reduzindo a sazonalidade e os desequilíbrios regionais, e mantendo um bom equilíbrio entre residentes e turistas.

Se, até março de 2020, fazia já pouco sentido menosprezar a importância da sustentabilidade na competitividade dos negócios do turismo, hoje, num quadro de crise pandémica global, o desenvolvimento sustentável é porventura um dos ativos mais importantes para as empresas do setor.


Mas a sustentabilidade está também na moda e nunca teve tanta visibilidade como nos dias de hoje. Está presente em todo o lado e, finalmente, começa a ser materializada em muitas ações, projetos e iniciativas com impacto direto para o nosso ambiente, mas também para a nossa sociedade.


Acredito que 2021 será o ano da retoma, o ano em que regressaremos, gradualmente, à normalidade, o ano em que Portugal se continuará a afirmar como destino turístico sustentável.

 

Artigo elaborado por: Filipa Calhoa, Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra

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