Publicado em

28 de Maio de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Estoril

Turismo Ferroviário, um novo produto turístico!

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Turismo Ferroviário, pelos carris a caminho de um novo produto turístico!


2021 – Ano Europeu da Ferrovia! Que melhor altura para abordar o Turismo Ferroviário, senão agora?

Foi exatamente essa a pergunta que fiz a mim própria quando decidi que seria interessante abordar, numa primeira instância, esta temática nas aulas de Itinerários Turísticos do curso de especialização tecnológica em Turismo Cultural e Património para, num segundo momento, querer propor esse mesmo objeto de análise numa ação de Formação Executiva que me tinha sido solicitada. Tendo decorrido, essa ação de curta duração entre finais de abril e inícios de maio, houve nela o intuito de apelar aos participantes sobre a importância de olhar para a memória e para o património que o Comboio representa na valorização da identidade territorial por ele atravessado, assumindo-se com isso a ideia de que se pode voltar a colocar o Comboio ao serviço da Viagem de Lazer, numa nova era industrial mais focada na sustentabilidade e na otimização de recursos. Para os alunos do curso de Turismo Cultural e Património, para além do exposto, o desafio tem sido igualmente o de os levar a conhecer destinos atravessados pelos caminhos de ferro e a proporem para esses destinos, eles próprios, novos itinerários, aliando-se com essa tarefa académica um antigo produto turístico, o do touring cultural e paisagístico, a este mais recente e embrionário, designado por turismo ferroviário.

Na verdade, para a Comissão Europeia, celebrar o Ano Europeu do Transporte Ferroviário tem como propósito apoiar a realização dos objetivos do Pacto Ecológico Europeu no domínio dos transportes, na medida em que ajudará a “acelerar o ritmo da modernização dos caminhos de ferro”, ação necessária para os tornar numa alternativa mais popular a meios de transporte menos sustentáveis, como o avião ou o automóvel. Além disso, o transporte ferroviário interliga as pessoas, as regiões e as empresas em toda a União Europeia, constituindo prova da competência técnica e fazendo parte do património e cultura comuns na Europa. Por último, e para justificar o ano escolhido, em 2021 assinala-se vários aniversários importantes para o transporte ferroviário, entre eles o 175.º aniversário da primeira ligação ferroviária de sempre entre duas capitais da União Europeia (Paris-Bruxelas, no ano de 1846) e os 40 anos do TGV.

Para Portugal, a celebração deste Ano Europeu ajudará a fortalecer e a impulsionar a dinamização das linhas ferroviárias que foram sendo construídas desde meados do século XIX e que nas últimas décadas do século XX tinham visto a sua área de influência reduzida, causando inúmeros constrangimentos que para além dos óbvios atrasou o que se deseja poder vir a ser um verdadeiro serviço ferroviário.

De facto, e nesse sentido, nas últimas semanas têm sido muitas as notícias publicadas sobre inaugurações ou reaberturas de linhas ferroviárias, como a que voltou a permitir a união entre a Linha da Beira Alta e a da Beira Baixa, ou a da eletrificação do troço entre Viana do Castelo e Valença do Minho; mas não se pode esquecer, neste contexto, os projetos divulgados no âmbito do Programa Revive Ferrovia, iniciativa conjunta desenvolvida entre o Turismo de Portugal I.P e a IP Património que, mesmo antes da pausa forçada no desenvolvimento da atividade do setor turístico causada pela pandemia do Covid-19, falava em fevereiro de 2020 na aplicação de apoios financeiros para uma adequada e integrada requalificação de património edificado abandonado, divulgando a existência de trinta estações ferroviárias desativadas e na ocasião sinalizadas no Minho e Alentejo disponíveis para adaptação a uma nova função. Previa-se nessa conjuntura, o suporte financeiro a quem procurasse oportunidades para recuperação e transformação dessas trinta estações em unidades de alojamento; ou porque não, sugerimos nós, em espaços culturais e de interpretação do património?, como de resto já tinha acontecido e com sucesso em muitas outras situações e desde há mais anos. Vem-me, nesse exercício de memória, rapidamente à lembrança a Pensão Destino em Castelo de Vide ou a Associação Rota da Bairrada, ambas instaladas em antigas estações ferroviárias, mas também o Projeto TopRail.org ao qual a CP se associou para, através de uma plataforma online, promover o turismo ferroviário, em conjunto com outras companhias ferroviárias internacionais; sendo esse, afinal, apenas mais um contributo a somar às inúmeras ações desenvolvidas nos últimos anos por esta empresa de transportes, que sob a égide dos seus Roteiros de Turismo e Lazer, tem impulsionado programas turísticos como o do Comboio do Conhecimento, dirigido a estudantes universitários a quem tem lançado o desafio de percorrer Portugal de Lés a Lés, incluindo nas viagens de comboio a estadia em Pousadas de Juventude ou a comercialização de Passes de Inter e Intra-rail, sem deixar cair a importância de publicações temáticas como a da Rota dos Azulejos dedicadas a Jorge Colaço.

Mas afinal o que é o Turismo Ferroviário? Um conceito? Um produto? Ou ambos?

Bom, na minha opinião, o Turismo, mais do que uma atividade económica é um estado de espirito, ligado à Viagem, à vontade de ir, de descobrir e de regressar enriquecido pelas experiências vividas, enquanto o Ferroviário remete para o comboio, essa invenção extraordinária que resultou da aliança entre a ciência e a técnica no período da revolução industrial e que contribuiu para o progresso da sociedade cosmopolita europeia desde meados de oitocentos; o comboio passa a ser o meio de transporte por excelência das elites e de todos quantos o utilizam para uma maior, mais rápida e eficiente viagem de negócios, lazer, educação ou cultura, promovendo com as estadias prolongadas e os eventos com as viagens relacionadas, uma nova prática de estilo sabático: a Grand Tour, de cuja ideia advém afinal a de Turismo!

Exemplos portugueses dos primeiros aristocratas viajantes da Grand Tour, foram os Infantes D. Pedro e D. Luis, mais tarde reis de Portugal, mas também os seus antecessores e sucessores que, por diversas ocasiões fizeram uso do comboio e do seu estatuto, e que por motivos diplomáticos, políticos ou meramente culturais, circularam por longos meses pela Europa recorrendo ao comboio na grande maioria das vezes. E, ainda que com alguns anos de atraso em relação à ferrovia europeia, Portugal sentiu o apelo da sua construção, muito pelo incentivo de D. Pedro V que em 1856 inaugura o primeiro troço entre Lisboa e o Carregado, no ano seguinte à sua aclamação como rei.

Contudo, Turismo Ferroviário é mais do que apenas a Viagem de Lazer com recurso ao Comboio, embora só de o mencionarmos se rasgue um sorriso na cara!, pois nele teremos de incluir para memória futura, os materiais, as infraestruturas, as acessibilidades, os territórios, as vivências e as inspirações!

De facto, o Comboio é um objeto que fascina qualquer pessoa, que está presente no imaginário, digo eu por via do barulho do apito e dos cheiros que a sua passagem pelos lugares potencia, e que terá inspirado a Cultura e as Artes; basta, para isso, lembrar exemplos na Literatura, na Música, na Pintura, na Arquitetura e até no Cinema, mas também pela existência de Estudos Académicos, muitos deles inspiradores para a criação de coleções ou inspirados nas peças recolhidas pelo gosto pessoal e mais tarde legadas a espaços como o Museu Nacional Ferroviário, com sede no Entroncamento mas com delegações e núcleos musealizados um pouco por todo o território nacional continental (Valença, Lousado, Arco de Baúlhe, Chaves, Bragança, Macinhata do Vouga, Santarém, Estremoz e Lagos).

Pode-se por isso falar de Turismo Ferroviário enquanto Conceito, porque à ideia de viajar saindo do seu espaço residencial para usufruir de uns dias de lazer, recorrendo ao comboio como meio de transporte para ir até lugares que não se conhece, pode estar uma forma de valorizar a própria viagem ferroviária, à qual inevitavelmente se associa uma Estadia e uma Experiência; mas mais do que valorizar a linha ferroviária e o comboio, o desenvolvimento do Turismo Ferroviário pode passar a ser também considerado um Produto Turístico quando se vendem ideias como a de pernoitar numa antiga estação ferroviária, ou percorrer numa bicicleta adaptada aos carris já sem uso, ou até mesmo viajar num Comboio Histórico, usufruindo de uma experiência integrada com paisagem, gastronomia e património móvel.

O Turismo Ferroviário assume-se então como um Conceito e um Produto, pois deve ser encarado como uma prática turística de descoberta baseada na ideia de viagem que recorre aos caminhos de ferro, construídos para ligar pessoas a lugares com atrativos paisagísticos e memórias identitárias que merecem ser conhecidas; por último, o Turismo Ferroviário é mais do que um Conceito ou um Produto, é um Tipo de Touring Cultural e Paisagístico, que através de itinerários sobre carris promove e salvaguarda as memórias, com a natural interpretação turística de um legado cultural e natural de territórios, dando valor à Identidade seja ela popular ou erudita dos mesmos.


Cláudia Inácio
Técnica Especialista Turismo e Património/Coordenadora CET Turismo Cultural e Património na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril

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