Publicado em

16 de setembro de 2020

Escola do Turismo de Portugal //

Porto

Uma escola para ou no futuro?
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Enquanto Diretor de uma Escola questiono-me diariamente sobre as decisões que tomo, em equipa ou sozinho, que afetam o presente, mas, e acima de tudo, o futuro da EHTPorto!


É cada vez mais frequente, e desde que vivemos nesta situação sanitária, ainda mais, pensar e antecipar o futuro. Mas se até ao início do presente ano o “mind set” era algo definido por um conjunto, mais ou menos estável de variáveis e componentes, atualmente estamos perante uma realidade que nos obriga a, de alguma forma, abandonar conceitos formais de olhar o futuro.


A nova realidade social

Tudo mudou, a forma como as pessoas se comportam em privado e público, a forma como elas comunicam e interagem, a própria forma como olham para o amanhã é totalmente diferente e muito mais focada no curto prazo.

Em artigos anteriores fiz referência a uma afirmação que ouvi de um professor, e que assustadoramente (por variação das condicionantes e razões) é cada vez mais real e atual:


“50% do que sabemos hoje, não terá qualquer utilidade daqui a 10 anos, e do que precisaremos de saber então, 50% não foi sequer ainda pensado ou criado!”.


É neste contexto que tenho pensado no que deve a Escola ser hoje e para o futuro! Sei que não encontrarei, nunca, a resposta certa ou definitiva, mas estou seguro que há um modelo que nos pode ajudar a fazer da Escola, um espaço de crescimento e aprendizagem (operacional, cívica/social e humanitária) em que tod@s se sentirão parte integrante e cuja voz será ouvida e considerada.


O contexto atual das escolas

Analisemos, brevemente, a realidade na qual, hoje, a Escola existe.

• Existe num quadro em que lhe são determinados objetivos em termos do que fazer e do que deve alcançar;

• Está sujeita à pressão dos formandos e suas famílias, dos formadores e professores, dos demais colaboradores, das empresas para quem prepara os alunos, das outras escolas concorrentes, das instituições que as enquadram, certificam, financiam e auditam;

• Tem de responder às expectativas reais de um conjunto de interlocutores, que se expressam através dos media e da opinião pública;

• É avaliada, essencialmente, através das avaliações dos seus formandos, e estes estão essencialmente centrados na obtenção de boas médias, ainda que esse critério possa não ter relevância na entrada no mercado de trabalho;

• Está sujeita a pressões diversas como correntes de pensamento sobre o papel da Escola, o politicamente correcto, as limitações orçamentais, entre outros factores;

• Age num quadro de formação completamente desatualizado, orientado numa lógica de produção industrial e com uma enorme dificuldade de romper com modelos formativos que em nada estão adaptados e adequados a novas formas de pensar, agir/operar, compreender e raciocinar (muitos dos nossos formadores continuam a ensinar tal qual foram ensinados!).


Os dias de hoje são, particularmente, não direi agressivos, mas exigentes e impiedosos para tod@s, sentindo-se tais posturas e posições em aspectos como:

Uma forte competitividade entre e intra escolas (colaboradores, professores, estudantes)…

Muitas das vezes sem se olhar ao papel da Escola e à sua função, resultando numa atitude de que só os melhores (em quê? como? porquê?) é que contam e interessam, e, portanto, tod@s os outr@s não contribuem para a “boa imagem” da escola!

• Uma preocupação exacerbada pela eficácia. Tudo que não origine resultados contabilizáveis ou visíveis não tem interesse, nem se adequa. Não é que a eficácia não seja relevante, mas não pode ser o principal drive na liderança da Escola, nem no papel de quem a gere.

• A falta de princípios que permite o aparecimento de uma relativização moral que nos conduz a uma vivência, e aceitação, de que tudo vale para se atingir os propósitos pretendidos.

• A falta de solidariedade dos mais capazes para com os demais, que afasta destes a preocupação face aos mais frágeis, condicionados ou limitados.

Cabe a estes assumirem a resolução dos seus problemas, já que os restantes tendem a não interferir, ou se o fazem, fazem-no com a intenção de complicar ainda mais. A antítese do espírito de equipa

• A forma como os media valorizam a “aparência” face à “realidade”, recorrendo a figuras públicas para servir de modelos, que muito pouco têm a ver com aquilo que a Escola defende, pratica, ensina e prepara.

• A velocidade vertiginosa do desenvolvimento tecnológico, que acaba por criar barreiras e limitações à sua adoção, já que “não há tempo” para aprender a utilizar esses recursos.


O futuro da escola

Face a tantas condicionantes, limitações e dificuldades, é para mim claro que o futuro é um tempo e espaço de mudança e melhoria para a Escola, e para tal a Escola terá de ser capaz de fazer, exemplarmente, aquilo que é a sua génese e “raison d’être”, ou seja, APRENDER!


Uma Escola que não é capaz de aprender, apenas vive o passado e sobrevive o presente, não sendo relevante para o futuro, não cumprindo assim a sua função de preparar os estudantes para o seu futuro!


“Uma escola inteligente, ou em vias de o ser, não pode centrar-se exclusivamente na aprendizagem reflexiva dos alunos, mas deve sobretudo ser um ambiente informado e dinâmico que proporcione igualmente uma aprendizagem reflexiva aos professores.”

PERKINS, 1995: 218


Que atitudes dispomos para nos tornarmos numa Escola que é capaz de Aprender, e por essa via é capaz de antecipar o futuro antes das demais e preparar melhor os seus estudantes, motivar os seus colaboradores e professores, e por isso mesmo tornar-se numa instituição que valoriza e contribui positivamente para a sociedade.

•Temos de ser capazes de nos questionar

É essencial questionar tudo o que fazemos. O racional deve ser o da dúvida, da incerteza e do desconforto, pois só nessas condições é que procuramos as melhores soluções e respostas, reinventando-nos e evoluindo.

•Precisamos de fazer investigação

A forma de alcançar a resposta à questão que levantamos, em que a participação dos vários actores é relevante e essencial, gerando diálogo e debate entre todos os envolvidos, internos e externos. Implica a existência de uma organização que o suporte e apoie, bem com de uma atitude institucional condizente.

Deve originar uma “resposta/resultado”.

•Devemos assumir e promover a compreensão da “resposta/resultado” e a sua aplicação/implementação

É a finalidade última do processo educativo (compreender o que fazemos), já que só a compreensão permite melhorar e transformar, e por isso mesmo, decidir!

A consequência expectável após a fase anterior é a aplicação/implementação da decisão, contribuindo para a melhoria da práxis.

•Assegurarmos o registo do processo e a sua partilha

O registo permite a sistematização do processo de melhoria (que se pretende constante), fazendo perdurar processos, resultados e investigações e facilitando a sua partilha pelos stakeholders, parceiros e diversos públicos envolvidos no processo, bem como pela demais comunidade.

•Assumirmos uma política de exigência e compromisso

“A diferença faz-se nos detalhes” é uma frase sobejamente conhecida de todos quantos trabalham no sector do Turismo, e tal realidade só é alcançável através de uma postura de compromisso, rigor e exigência constante e permanente.


Caraterísticas importantes para uma escola de futuro

Uma Escola para ser capaz de “marcar” e criar o futuro não pode, nem deve ser neutra! Tem de conhecer profundamente a sua Missão, assumir os seus Valores e inserir-se na sua (mais ou menos alargada) comunidade, avocando para si o seu papel transformador e diferenciador.


Algumas das principais características de uma Escola que aprende, são a sua capacidade de manter um modelo de ensino partilhado, o reconhecimento da sua história e relevância do seu passado, uma cultura própria reconhecida e valorizada pelos stakeholders e lideranças proativas e integradoras.


De igual forma o seu grau de Abertura ao exterior, promovendo trocas criativas e positivas entre estas duas dimensões, valorizando, ou melhor dizendo, ensinando tanto quem acolhe como quem é acolhido, aceitando a crítica como um factor construtivo e isento de represália, reflete uma postura orientada para uma Melhoria Contínua, outra das características da Escola que Aprende.


A par destas devemos ainda mencionar a Flexibilidade, como uma das condições essenciais a este perfil, sendo que a Flexibilidade deve estar sempre acompanhada pela Autonomia. Flexibilidade como forma de responder aos desafios e dificuldades que se enfrentam e necessitam de formas diferentes de reação, para a obtenção de resultados, também eles distintos (ver vídeo demonstrativo abaixo).


A Autonomia reflete a capacidade de não se ter de reagir como todos os outros o fazem, o que implica “coragem” e segurança por parte de quem lidera e decide.


Uma outra característica, e que surge quase naturalmente das anteriores, é a Criatividade e Inovação, como forma de assegurar a evolução e a melhoria como elementos naturais na “vida” das Escola.


Uma última característica desta postura é a existência de um verdadeiro Espírito de Equipa no seio da componente humana. Assiste-se, vezes de mais, à personalização de áreas formativas criando “quintas e quintais” que criam entropias e condicionantes à vida da Escola, gerando pequenos poderes pouco produtivos e limitadores de melhorias.


Somente uma gestão das pessoas em prol da melhoria e evolução da Escola, solicitando e contando com a participação de tod@s, independentemente da sua posição, idade ou cargo permite um pleno envolvimento e uma atitude intraempreendedora, capazes de contribuir positiva e ativamente para que a Escola seja, para além do espaço que ensina, a organização que também APRENDE!


Estou seguro que este será o caminho que iremos, em breve, começar a percorrer na EHTPorto, fazendo assim jus ao nosso lema, “a Escola onde a Tradição se inova”, recuperando e reconquistando o papel que foi nosso, assumindo que somos a Escola de referência na formação sectorial para a Hotelaria, o Turismo e a Restauração.


Artigo elaborado por:

Paulo Morais Vaz

Diretor da Escola de Hotelaria e Turismo do Porto

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