Publicado em

21 de Julho de 2021

Escola do Turismo de Portugal //

Vila Real de Santo António

Inovação e capacitação empresarial, uma perspetiva do sotavento algarvio

Image


A intensidade e a velocidade das transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e tecnológicas que estão a ocorrer nos últimos anos têm criado um ambiente bastante turbulento para as pessoas, organizações e governos em diversos países. Alguns autores descrevem o ambiente empresarial atual como volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA - do inglês Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous). A volatilidade refere-se à natureza, magnitude e velocidade em que os fenómenos ocorrem. A incerteza deriva da carência de padrões ou tendências que permitam previsões acuradas sobre o futuro. A complexidade indica as inúmeras possibilidades de interação entre os acontecimentos, gerando variadas combinações nos sistemas. Finalmente, a ambiguidade descreve as diversas interpretações possíveis para um mesmo fenómeno, o que dificulta as decisões dos gestores.


As transformações supramencionadas foram potencializadas e aceleradas pela pandemia por Covid-19 que, segundo dados da World Health Organization (WHO, 2021), acometeu mais de 190 milhões de pessoas em todo o mundo desde que o primeiro caso foi diagnosticado na China em 2019, ceifando mais de 4,1 milhões de vidas até ao momento. Importa destacar que o número total de casos acumulados em Portugal atualmente é de 930 mil, sendo que aproximadamente 17,2 mil pessoas faleceram por causas relacionadas com a Covid-19. Embora até a primeira quinzena de julho de 2021 tenham sido aplicadas cerca de 10,5 milhões de doses de vacina contra o coronavírus em Portugal, a mitigação da pandemia permanece sendo um grande desafio para a população, governo, organizações públicas e privadas, particularmente as que operam no setor de turismo, hotelaria e restauração.


Por exemplo, o setor de turismo e hotelaria do Algarve, que em 2019 havia recebido mais de 5,1 milhões de turistas e 20,9 milhões de dormidas, em 2020 acolheu cerca de 2,0 milhões de turistas e teve 7,9 milhões de dormidas. Tais números demonstram que o número de hóspedes em 2020 correspondeu a apenas 39,4% do registado no ano anterior e que o número de dormidas foi de 37,9% comparativamente ao ano de 2019 (TravelBI Turismo de Portugal, 2021). O setor da restauração também sofreu fortes impactos devido ao encerramento temporário das suas atividades, redução no número de clientes permitidos nas suas instalações para manter o distanciamento social, mudanças nos protocolos sanitários como uso de álcool em gel e máscaras, dentre outras medidas para a contenção da pandemia. Muitos estabelecimentos do setor de alimentação fora do lar tiveram de modificar os seus modelos de negócios drasticamente para se adequarem às contingências. Entende-se, portanto, que tais setores foram profundamente afetados pelas interrupções das atividades durante longos períodos entre 2020 e 2021.

 

Todas estas mudanças impuseram às organizações algarvias a necessidade de reformulação nas suas estruturas e estratégias para sobreviverem e se manterem competitivas. Entretanto, sabe-se que as organizações reagem de forma distinta aos estímulos externos (ameaças e oportunidades). Muitas organizações têm dificuldades em perceber as mudanças ambientais e/ou em aceitar inovações que trazem respostas mais eficazes aos problemas atuais. Tais organizações tendem a viver exclusivamente do sucesso obtido no passado e a recorrer a fórmulas ultrapassadas para solucionar novos problemas. Tipicamente incorrem em baixo desempenho e competitividade, o que causa frustração de expetativas.

 

Outras empresas mantêm um foco exclusivamente no presente e têm obsessão por lucros no curto prazo. Deste modo, despendem esforços apenas em atividades capazes de trazer resultados imediatos. Assim, não investem em inovações que demonstrem possibilidades de retorno apenas no médio ou longo prazo. Porém, a gestão de organizações inovadoras depende de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e de tempo de maturação.

 

Existem ainda organizações que aguardam passivamente o futuro chegar, mas pouco ou nada fazem para alterar o seu próprio destino. Em tal tipo de organização, os empresários sabem que o ambiente é turbulento, estão conscientes que devem implementar inovações para melhorar a competitividade das suas empresas, mas tendem a ser conservadores, pouco ativos e/ou inflexíveis para promover mudanças. Embora reconheçam as ameaças e oportunidades ambientais e a necessidade de implementar inovações, frequentemente não agem atempadamente para colocá-las em prática.

 

Por fim, existem organizações que constroem o seu próprio futuro – estão atentas às ameaças e oportunidades existentes no seu ambiente, têm missão, visão, valores, objetivos e metas formalmente definidas, criam e alteram as suas estratégias para se tornarem mais competitivas. Tipicamente adotam estratégias inovadoras, sendo responsáveis por alterações no seu ambiente. São organizações que ocupam posição de liderança em determinadas indústrias, o que faz com que elas estabeleçam as regras do jogo com base nas suas competências essenciais, obrigando os concorrentes a se adaptarem. Normalmente, tais empresas são dirigidas por empresários e profissionais dinâmicos, criativos e inovadores que reconhecem as mutações ambientais e tiram proveito delas para mudar constantemente. Além disso, conseguem identificar e explorar adequadamente as suas competências essenciais utilizando-as como vantagens competitivas. Tais organizações têm maiores chances de sucesso nos mutantes ambientes atuais.

 

Os empresários também têm sido impelidos a modificarem o seu modelo mental e formas de atuação para liderarem os processos de mudança organizacional. Isto porque em ambientes em constante mutação, é fundamental manterem uma atitude de desapego ao passado para serem capazes de aprender o que existe no presente e estarem abertos ao que virá no futuro. Sabe-se que a inteligência e a racionalidade são alguns dos diferenciais competitivos humanos mais relevantes. Elas contemplam a capacidade humana de aprender continuamente e permitem que as pessoas identifiquem problemas e oportunidades, coletem e analisem dados e informações, sistematizem conhecimentos tácitos em explícitos, criem soluções inovadoras para os problemas e oportunidades identificadas, avaliem alternativas, estabeleçam prioridades, tomem decisões e operacionalizem ações para alcançar os seus objetivos.

 

Outro diferencial humano digno de menção é a capacidade das pessoas de se comunicarem com outros indivíduos por meio de canais, instrumentos e códigos (linguagens) mutuamente compreensíveis. Assim, através da troca de informações, os empresários podem usufruir do conhecimento prático e técnico-científico gerado por outrem para incrementar a performance das suas organizações. Vale salientar que conhecimentos e inovações são gerados tanto no âmbito interno das organizações por seus colaboradores e gestores, quanto no ambiente externo, por clientes, organizações parceiras ou concorrentes, centros de investigação, instituições educacionais, etc.

 

É importante destacar que para que os empresários possam usufruir dos diferenciais competitivos humanos supramencionados em prol do desempenho dos seus negócios é necessário desenvolver um modelo mental aberto à aprendizagem contínua, inovação e empreendedorismo. Tal postura permite monitorar tendências, antecipar-se às ameaças ambientais, aproveitar as oportunidades que surgem e ampliar a racionalidade das decisões nas suas empresas.

 

A formação contínua ao longo da carreira profissional permite aos empresários obterem uma visão holística das variáveis que podem afetar os seus negócios, bem como manterem-se atualizados em relação às tendências e tecnologias de vanguarda em seus setores de atuação. Além disso, a formação contínua aumenta a capacidade dos empresários em identificarem oportunidades mercadológicas, idealizarem modelos de negócios inovadores e que gerem valor aos olhos dos consumidores e obter ferramentas para a gestão dos recursos financeiros, materiais e humanos necessários para atingir os objetivos organizacionais.

 

Embora o Sotavento Algarvio apresente potencialidades para o desenvolvimento de diversas atividades económicas, historicamente a região depende do setor do turismo, hotelaria e restauração como gerador de empregos, renda e qualidade de vida para a população. Cabe salientar que o desenvolvimento territorial envolve a melhoria das condições de vida da população e da competitividade das organizações nas dimensões económica, social, cultural, política, tecnológica e ambiental. Para tanto, é fundamental criar modelos que permitam a manutenção do desenvolvimento por prazo indefinido, ou seja, de maneira sustentável. Finalmente, o desenvolvimento territorial da região do Sotavento Algarvio passa necessariamente pela capacitação contínua da sua população, bem como de seus empresários.

 

Artigo elaborado pelo Prof. Gustavo Quiroga Souki

Assessor de Inovação da Escola de Hotelaria e Turismo de Vila Real de Santo António

 

 

Referências:

TravelBI Turismo de Portugal (2021). Mercados e estatísticas. Disponível em <https://travelbi.turismodeportugal.pt/pt-pt/Paginas/HomePage.aspx> Acesso em 20 de julho de 2021.

WHO - World Health Organization (2021). WHO Coronavirus (COVID-19) Dashboard <https://covid19.who.int/> Acesso em 20 de julho de 2021.

 

 

 

contactos

Em caso de dúvidas, entre em contacto connosco.

Email:

formacao@turismodeportugal.pt

Política de Privacidade

Newsletter

Siga-nos

Image