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27 mar 2026
Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra

A EHTC - uma história de muitas estórias

 

A EHTC - uma história de muitas estórias

Sobre esta colina onde se ergue a nossa escola, esta senhora airosa dos seus 36 anos, que já formou muitas estrelas e transformou sonhos em carreiras, a que chamamos Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, erige-se, concomitantemente, uma história de estórias.

É essa estória que tentamos contar, recriando o estilo que nos pareceu mais adequado, porque nada neste palacete ficará aquém daquela casa de família que um autor atento e de fama colocou no centro da ação. Pretendemos seguir essa batuta que oscila entre o olhar vívido e o sorriso sofisticado, embora o manancial de factos e memórias que emanam destas paredes pudessem muito bem interessar a qualquer escritor dos nossos dias e não apenas à verve contagiante do autor do Ramalhete que assumidamente nos inspira.

Fizemos um levantamento minucioso. Encontrámos pouco mais do que um nome, algumas descrições soltas e uma família. Ainda assim, algo mudou. Já não atravessamos este espaço com a mesma distração de outros dias. hoje existe o tinir de metais, o linho perfumado das toalhas que proporcionam experiências formativas excecionais a quem pelo espaço deambula, a verdade é que a música que terá preenchido os salões da casa parece persistir, atravessar o tempo, numa fusão absoluta, entre o passado e o presente.

Esta pesquisa abriu-nos uma porta. E talvez por isso nos tenhamos deixado levar. Por momentos, sentimo-nos como um desses escritores cuja lente observa os lugares com demora, como se tudo pedisse mais atenção. As vestes da casa, esse organismo vivo, vão mudando, mas o seu espírito persiste.

Há qualquer coisa nesta antiga Quinta da Boavista que não se deixa reduzir à sua função atual. A escola, com os seus horários, as suas práticas e a agitação própria de quem aprende, ocupa o lugar, mas não o esgota, modifica-lhe a aparência e concede-lhe uma nova respiração.

A disposição do edifício denuncia outra vida. O solar, com a sua planta em U, voltado para um pátio que parece mais pensado para ser visto do que apenas atravessado, sugere uma organização social precisa. Há entradas que recebem, percursos que expõem, espaços que resguardam. Nada parece casual.

A capela, integrada na fachada, não está apenas ali por devoção. Está por afirmação. Como se dissesse, em silêncio, que se vivia com ordem, com ritual, com uma certa consciência de posição.

E depois há o que não está escrito, mas se adivinha.

As famílias que habitaram a casa, os Barata Alpoim e os seus, não escolheram este lugar apenas pela vista, embora ela seja, ainda hoje, difícil de ignorar. Escolheram-no porque lhes permitia existir de determinada forma. Entre o recolhimento e a exibição. Entre o privado e o social.

Houve um momento em que a casa mudou de mãos, mas não perdeu a sua natureza. Em 1980, a Câmara Municipal de Coimbra adquiriu a propriedade e decidiu dar-lhe um novo destino. Pouco depois, cedeu-a ao Turismo de Portugal. O que antes era privado abriu-se ao público, o que antes recebia convidados passou a formar profissionais. Mudaram-se as funções, não se perdeu a vocação: há lugares que, independentemente de quem os habita, sabem sempre para que foram feitos.

É neste ponto que a imaginação começa a fazer o seu trabalho, camadas de tempo são sobrepostas, ideias, sons, imagens reais e fantasiadas, desejos de concretização, enfim, porque um espaço assim não se limita a acolher rotinas, pede ocasiões.

Rapidamente constitui-se um cenário tão verdadeiro que nos parece real: estamos numa dessas noites que o Mondego terá visto, ao passar com indiferença, a casa iluminada com mais intensidade do que o habitual. As janelas abertas. O som, discreto, mas presente, da música. As figuras a circular com propósito, os gestos medidos, as conversas que começam por conveniência e acabam, por vezes, em revelação.

Talvez um baile.

Não daqueles que se contam nos livros, mas daqueles que fazem sentido num lugar concreto, onde cada sala tem uma função, cada luz tem uma intenção e cada presença é, de algum modo, observada.

Hoje, claro, nada disso acontece, pelo menos, não da mesma forma.

Mas há momentos, raros, embora suficientes, em que o espaço parece suspender-se ligeiramente. Como se esperasse. Como se reconhecesse, em certas dinâmicas, uma repetição distante daquilo que já foi.

E é talvez isso que mais nos ficou deste trabalho.

A ideia de que este lugar não é apenas onde estamos. É um lugar que já soube, antes de nós, o que significa receber.

Com alguma sorte e talvez um certo atrevimento, ainda o poderá voltar a saber, porque, numa destas noites, dei por mim a imaginar um baile de máscaras e, por instantes, vi-me, ali, vestido como D. João V.

Ficamos com essa imagem.

E com uma vontade doce de dançar. Talvez uma valsa.

Até breve.

Conversas do Jorge para o André

Vozes em Construção do Curso de Turismo Cultural e Património

 

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