
Com mais de quatro décadas de percurso, Fernando entrou na escola como aluno em 1975 e regressou, anos mais tarde, como formador, mantendo sempre uma forte ligação ao mercado de trabalho.
Nesta conversa, revisita memórias da “escola velha”, reflete sobre a evolução da profissão e partilha a sua visão sobre os desafios atuais e futuros.
Uma entrevista que é, também, um testemunho de compromisso com a excelência, a formação prática e o valor da experiência no ensino. Fernando Brito, é um exemplo de resiliência e dedicação.
Regina Madruga

– É antigo aluno EHTE. Porque escolheu esta Escola?
Na altura, trabalhava num hotel em Carcavelos. Era muito jovem e vir para esta escola era uma boa oportunidade e um bom começo. Tinha 16 anos. Foi em 1975. Entrei nesta escola ainda na “escola antiga”.
Estas instalações atuais ainda não existiam. Na altura, havia três cursos de aperfeiçoamento e eu fi-los todos – cursos de Barman 2ª, Barman 1ª e Chefe de Bar. Com 18 anos, com os cursos concluídos, já tinha uma carteira profissional de chefe de Bar. Fui a primeira pessoa em Portugal a obter a carteira profissional de Chefe de Bar.
– Estudou numa escola antiga? Estamos numa “escola nova”?
Sim, estudei na chamada “escola antiga”, que era uma escola de menor dimensão, instalada numa vivenda numa das avenidas principais do Estoril. Era um espaço muito diferente daquele que conhecemos hoje. As atuais instalações abriram mais tarde, em 1991, e foi aqui que permaneci até hoje. Aqui, a escola tem 35 anos.
No total, a escola tem 54 anos. Eu tenho 43 anos de ligação à escola: aproximadamente oito anos na escola antiga e 35 anos nestas instalações. É muito tempo de casa e de história acompanhada de perto.

– Como começou a ser formador nesta escola?
Fui convidado. Estávamos em 1982. Tinha 23 anos e já competia em concursos organizados pela Associação de Barmen de Portugal. Era um miúdo que tinha estudado aqui na escola, tive a sorte de ganhar vários concursos e comecei a aparecer nos jornais.
Naquele tempo, a escola foi à minha procura e trouxe-me para ser assistente do professor da altura, Jorge Carvalho. Lá fiquei como assistente dele durante cerca de dois anos.
O Jorge Carvalho acabou por se reformar e eu fiquei como Professor Oficial de Bar na escola antiga. Depois, quando abriu esta escola, também vim e aqui permaneci até agora (tanto na nossa Escola como na Escola Superior).
– Começou a atividade de formador, mas manteve sempre a ligação ao mercado de trabalho. Que importância tem esta ligação enquanto formador?
Nessa altura era Chefe de Bar num bar de luxo localizado em Cascais. Quando vim para a escola, acumulei com essa atividade. Nunca tive só a profissão de formador. Dava aulas de dia e trabalhava à noite.
Sempre mantive a profissão lá fora. Acho que só assim é que se pode, nesta área da hotelaria, estar apto a dar aulas. É fundamental estar em contacto real com a atividade. De outra forma, acho que não resulta.
É preciso experiência profissional atual. Claro que, por outro lado, foi exigente a nível familiar.

– Como foi o primeiro trabalho na hotelaria e a sua evolução profissional?
Comecei a trabalhar com 13 anos numa estalagem em Carcavelos. A seguir, trabalhei como Bartender num bar no Estoril. Mais tarde, fui para um bar de um bom empreendimento turístico. Daí em diante foi sempre a crescer.
Depois, já a dar aulas aqui na escola, passei a trabalhar só à noite como gerente de espaços noturnos (bares de discotecas). Também fui fazendo consultorias em bares, restaurantes e hotéis.
– O que mudou desde esse tempo dos anos 80?
A relação aluno-professor era diferente. Entendo que havia mais respeito. Foi-se perdendo um conceito de respeito aos professores. É a minha opinião, com estes 43 anos. O professor era visto como uma autoridade.
Por outro lado, não tínhamos computadores, projetores de vídeo nem quadros digitais. Tínhamos acetatos e o retroprojetor.

– Quais os três princípios de eleição nesta profissão?
Primeiro de tudo, a simpatia. Segundo, a resiliência porque é preciso estar sempre disponível a qualquer hora. Às vezes, é preciso abdicar de folgas. Na hotelaria funciona assim. Terceira, o saber-fazer.
Posso ser muito simpático e estar muito disponível, mas se não tiver conhecimento técnico para executar, não funciona.
– O que o levou a permanecer nesta carreira? Com certeza, houve momentos mais desafiantes e difíceis.
Gosto de ser professor e gosto muito de dar aulas. Gosto de hotelaria, principalmente da área de gestão, do bartending e de mixologia. Foi isso que me fez ir ficando até agora. Este ciclo está a acabar.
Em breve vou-me reformar (risos). Quando me reformar do ensino vou começar a dar aulas no campo internacional.
É o que conto começar a fazer com a International Bartenders Association em breve.
– Neste contexto global (de avanço da inteligência artificial e transformação das profissões e da organização do trabalho) como vê o futuro da profissão?
Há mão-de-obra que está a ser substituída por máquinas. Hoje vamos a certos bares ou restaurantes e vemos robôs a servir pessoas. Por exemplo, a trazer ou a levantar pratos. Mas, é sempre preciso a componente humana, a coordenação e a gestão das máquinas.
Por isso faz algum sentido que os jovens, que ingressem hoje nesta área, também se foquem na área da tecnologia e dos computadores.

– O que mais o marcou durante esta carreira de 43 anos?
Marcou-me tudo. Houve muitas pessoas que me marcaram a nível profissional e muitos alunos que me marcaram. Foram muitos alunos.
Para mim, é muito gratificante ir, a trabalho, a um hotel ou a um bar e (com muita frequência) encontrar alguém que me cumprimenta e se recorda de mim.
– Que conselhos daria aos futuros formadores da área de bar e hotelaria?
É importante que tenham uma grande resiliência e um grande poder de encaixe, muita paciência porque os jovens hoje têm outros valores e isso pode ser desafiante.
– Uma mensagem aos atuais e futuros alunos da escola.
Façam por ser os melhores para terem sucesso. Foi isso que sempre fiz na vida. Posso não ter sido o melhor, mas fiz sempre para ser o melhor. Sempre me esforcei para ser o melhor que podia, tanto nas unidades onde colaborei como nas aulas que ministrei.
EHTE: Obrigada, Fernando Brito. Um orgulho seres parte desta escola.
Entrevista, edição de texto, vídeo e imagem:
Delfina Baião (Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril)